"...ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema." Gálatas 1:8
Somente Cristo! Somente a Bíblia!
"Fiz uma aliança com Deus: que ele não me mande visões, nem sonhos, nem mesmo anjos. Estou satisfeito com o dom das Escrituras Sagradas, que me dão instrução abundante e tudo o que preciso conhecer, tanto para esta vida quanto para o que há de vir." - Martinho Lutero
O cerco de 51 dias acabou com o incêndio da granja (Arquivo/Reuters)
Segunda, 19 de junho de 2000, 16h02min
Sete anos depois da desastrosa operação do FBI contra uma granja da seita dos davidianos em Waco, no Texas, sobreviventes e as famílias das vítimas exigem das autoridades federais uma indenização de US$ 675 milhões.
Em lugar de exercer tanto esforço e energia para distanciar-se dos davidianos, cada adventista deveria deter-se por um momento. Precisamos ponderar sobre a possibilidade de que uma parte de nós, uma parte de nossa história, uma parte de nossa subcultura, pode ter permanecido ativa num recanto da distorcida mente de David Koresh. Um pedaço de um lado pouco salutar de nossa própria religião pode ter explodido num recanto do complexo de Waco.
Como se dá com muitas famílias humanas, nossa família religiosa tem o seu lado problemático. Uma família problemática com freqüência tem seu bode expiatório. É aquele membro que age de um modo mais extremado segundo o lado doentio, distorcido, da família.
O bode expiatório se lança mais a excessos do que o restante da família. Isso, em certo sentido, convém àquela família. A atenção é desviada do próprio problema básico da unidade familiar e vai para o membro com evidências de desajuste maior. Esse bode expiatório carrega os "pecados" da família e a protege do escrutínio público.
Em certo sentido, quanto mais extremadas são as crenças ou atitudes desse bode expiatório, mais bem servida será a família problemática. O resto da família se posta em negação, nunca parando para analisar suas próprias distorções e necessidade de crescimento e mudança. Mantém demasiado enfoque sobre o comportamento escandaloso da ovelha negra!
Não obstante o empenho dos departamentos de relações públicas da denominação buscar nos convencer de que não há ligação entre os davidianos e nós, precisamos examinar bem essa questão. Talvez nosso irmão ovelha negra David estivesse desempenhando o papel do bode expiatório para nós eficientemente.
Indagações, em vez de Negação
Se por um instante analisarmos detida e honestamente a nós mesmos, podemos ver que a igreja pode aprender com a tragédia de Waco. Talvez uma religião mais salutar, uma família eclesiástica mais saudável para todos nós, poderia resultar disso.
Não só para adventistas. Os membros de qualquer denominação podem beneficiar-se. Todos precisamos fazer um reexame de nós próprios à luz das chamas que incendiaram Waco.
Podíamos começar formulando a nós mesmos algumas difíceis perguntas. Indagações sobre como temos separado nossa religião de nossa religiosidade, nossos sentimentos religiosos saudáveis da religiosidade viciada, desajustada. Afinal de contas, o sectarismo é meramente uma extensão da religião viciada.
Sinais de uma Religião Doentia
Os sintomas de vícios na prática religiosa incluem:
Obter a maior parte da auto-estima por pertencer a uma igreja.
Renunciar à individualidade e poder em favor da igreja. Isso inclui resistir a pensar por si mesmo, não se dispor a questionar crenças ou autoridade religiosas, e negligenciar-se, ou à família, para servir à igreja.
Orgulho espiritual exclusivista que leve alguém a sentir-se moral e espiritualmente superior aos demais. A pessoa se vê como membro de uma elite minoritária, tendo acesso a conhecimento ou verdades vitais especiais que a tornam superior aos outros.
Uma visão estreita de inspiração que inclui uma interpretação literal e dogmática das Escrituras.
O uso da Bíblia e outros escritos religiosos como um chicote ou tenaz para coagir outros a crerem ou se comportarem da mesma forma que tal pessoa. Temor, medo e culpa são freqüentemente empregados como táticas para controlar ou manipular o comportamento ou crenças de outro ou outros.
A aceitação e ensino de um teologia distorcida. Por exemplo, a doutrina de um inferno de fogo e enxofre eternamente ardendo representa uma teologia distorcida. Crer que Deus está mais preocupado com o julgamento, punição e em aterrorizar do que com graça, misericórdia e amor incondicional é teologia distorcida. Realçar a pecaminosidade inerente e a malignidade da natureza humana com exclusão do fato de que os seres humanos são filhos de Deus, criados à Sua amorável imagem, é teologia distorcida. A pessoa que opera sob o engano de que seu próprio bom comportamento tem muito a ver com a obtenção do amor de Deus e a salvação também está se apegando a uma teologia distorcida, baseada na vergonha.
...Mentalidade de Paranóia
Outra mentalidade nada salutar poderia também levar a desvios indivíduos vulneráveis como D. Koresh. Alguns de nós na Igreja Adventista no passado destacamos uma teologia apocalíptica assustadora. Pessoas com tendência a paranóia religiosa podem ser abaladas com tal ensino.
Um estudante do Colégio União do Pacífico, em Angwin, Califórnia, descreveu suas lembranças religiosas passadas para o jornal acadêmico nos seguintes termos:
Sendo adventista desde o berço fui cedo iniciado no jargão do terror dos tempos finais. Lembro-me como me foi apresentado o conceito de leis dominicais por um adulto que declarava implacavelmente que os que assistiam aos cultos na igreja aos sábados, em vez de aos domingos, seriam algum dia mortos. E isso poderia ocorrer em qualquer ocasião! Sentia-me literalmente deprimido durante meses em vista disso. Tinha somente sete ou oito anos, contudo achava-me envolvido num lusco-fusco de terror como nunca experimentei em minha vida adulta.
Naqueles tempos ouviam-se nas igrejas sermões apavorantes, e quando os adultos se reuniam na sala de estar às sextas-feiras à noite, a conversação girava em torno de leis dominicais, a besta, o anticristo, a batalha do Armagedom. Nós como crianças ouvíamos tais conversas e íamos para a cama muitas noites apavorados! Os pequenos ficavam com a sensação de que na calada da noite seriam arrastados para fora e torturadas pelos católicos!
Nossa ênfase indevida aos terrores dos últimos dias pode inadvertidamente ter alimentado o lado obscuro de almas feridas e vulneráveis como a de David Koresh. Dada essa ênfase sobre os terrores do tempo do fim, que praticávamos mais freqüentemente no passado, sentimentos de perseguição e paranóia têm perdurado.
Resultados da Rejeição
Sendo filho ilegítimo com dificuldades de aprendizagem, a vida pregressa de David Koresh não deve ter sido fácil. Abandonar a escola no início do segundo grau não contribuiu para elevar sua baixa auto-estima.
Sua avó relata que quando ele se uniu à Igreja Adventista em Tyler, Texas, foi tratado com desdém. Seus cabelos longos, estilo de vestuário e preferências musicais eram inaceitáveis.
Em lugar de ser aceito pelo que era, em vez de ser amado incondicionalmente pela igreja, ele aparentemente foi julgado e criticado. Pode-se conjecturar que em parte, como resultado dessa rejeição, é que ele se bandeou para o Ramo Davidiano em Waco.
Nós, adventistas, nunca saberemos quanto essa falha em amar e apoiar um jovem solitário e inseguro pode ter contribuído para a tragédia subseqüente.
Quando a religião se torna religiosidade e sua ênfase recai sobre temor, culpa, e vergonha, é facilmente distorcida numa religiosidade viciada. Tal situação conduz pessoas a posições extremadas, como se dá no sectarismo.
Era David Koresh o Messias? Certamente não. Teria morrido por causa de nossos pecados?
É bem possível.
Douglas Cooper, Ph. D., é um conselheiro familiar, matrimonial e infantil em Napa Valley, California, EUA. Ele atuava como pastor-associado voluntário do Centro Comunitário Adventista em Santa Helena, Calif, quando redigiu o artigo "Cult R Us", publicado pela Good News Unlimited, em julho de 1993, págs. 6 a 8 e que transcrevemos aqui parcialmente
O cerco de 51 dias acabou com o incêndio da granja (Arquivo/Reuters)
Segunda, 19 de junho de 2000, 16h02min
Sete anos depois da desastrosa operação do FBI contra uma granja da seita dos davidianos em Waco, no Texas, sobreviventes e as famílias das vítimas exigem das autoridades federais uma indenização de US$ 675 milhões.
O julgamento, que começou segunda-feira em Waco com a escolha do júri, decidirá se o governo é responsável pela morte de 86 membros da seita, entre eles 17 crianças, durante o ataque ao local, em seguida a um cerco de 51 dias.
"De um lado há um grupo de cidadãos que denunciam graves abusos de poder cometidos pelo Estado. Do outro, há um governo que terá que explicar seus atos", disse Bill Underwood, professor de direito da Universidade de Baylor.
Dia 28 de fevereiro de 1993 centenas de agentes do órgão federal encarregado de fiscalizar as armas de fogo foram em busca de armas e explosivos à granja ocupada por adeptos da seita Davidiana, grupo dissidente da Igreja Adventista do Sétimo Dia liderado por David Koresh.
Os agentes foram recebidos a bala. No tiroteio morreram quatro agentes e numerosos integrantes da seita.
Em resposta, o FBI cercou a granja e, ao final de 51 dias, Koresh aceitou libertar algumas mulheres e crianças, mas não quis se render.
Dia 19 de abril, o FBI tentou atacar a granja numa ação que incluiu o uso de carros blindados, granadas e gases lagrimogêneos. A granja não demorou a ser devorada por um incêndio e apenas poucos membros da seita conseguiram se salvar.
A ministra da Justiça, Janet Reno, que deu a ordem de ataque, chegou a dizer que "não há absolutamente nenhuma dúvida que (o incêndio) tenha sido iniciado pelos membros da seita".
Oito davidianos sobreviventes foram condenados em 1994 a penas de até 40 anos de prisão por homicídio e posse ilegal de armas. Há uma semana a Suprema Corte reduziu as sentenças por considerar que o juiz se excedeu.
As circunstâncias exatas da tragédia continuam polêmicas. Os davidianos dizem que o incêndio começou com o uso de gás inflamável por parte dos federais. Também dizem que os agentes dispararam contra os membros da seita que tentavam fugir do incêndio.
A descoberta de dois filmes sobre o ataque feitos por um avião de vigilância forçou o FBI a admitir o uso de gás inflamável, um fato que negou durante seis anos.
Aqui no Brasil, a maioria de nós, adventistas, já não se lembra da tragédia de Waco. Aliás, de fevereiro a abril de 93, a imprensa brasileira divulgou apenas tratar-se de um grupo de fanáticos religiosos cercado numa fazenda pelo FBI. Quando houve a tragédia final, soubemos que eram acusados (note bem, acusados) de uso de drogas, porte ilegal de armas pesadas e abuso sexual contra crianças. Disseram também que os seguidores de David Koresh preferiram suicidar-se a render-se aos federais.
Só mesmo pela Internet e publicações estrangeiras obteve-se a informação de que se tratava de um grupo dissidente da Igreja Adventista do Sétimo Dia na década de 30 e conhecido como Ramo de Davi. A reabertura do caso em 1999 nos Estados Unidos fez surgir muitas outros detalhes. Entre eles, o de que entre os davidianos mortos havia muitos ex-adventistas, inclusive 24 crianças. Melissa Morrison, de apenas 6 anos, era uma delas. Essa garotinha inglesa acompanhava sua jovem mãe, de 29 anos, que também morreu intoxicada e carbonizada.
Não se confirmou nenhuma das alegações de abuso sexual contra essas crianças. Durante o cerco que durou 51 dias, o chefe da psiquiatria do Texas Children's Hospital, Dr. Bruce D. Perry, pôde conversar com elas e todas negaram qualquer tipo de violência sexual. Evidências físicas de estupro ou atos libidinosos também não foram encontradas. As crianças só relataram algumas restrições quanto a comportamento, cuja desobediência poderia ser punida com palmatória ou castigos como ficar sem comer. "Mas disciplina não é abuso", concluiu o Dr. Perry.
David Koresh não era um santo, como você e eu também não somos. Na juventude, foi ator de cinema, cantor de rock e dizem que usou drogas. Como líder religioso, admitiu a poligamia, o que contraria também as leis dos Estados Unidos. Imaginou-se profeta, tendo até enviado cartas com supostas mensagens de Jesus Cristo para a Associação Geral da Igreja Adventista do Sétimo. Nada disso justifica, porém, sua execução sumária, sem chance de defesa. Nem o assassinato brutal de seus seguidores.
Não foi suicídio? Você deve estar pensando. Não foi. David Koresh e seus seguidores foram vítimas de bombas de gás tóxico e incendiário, tortura psicológica e, indiretamente, da intolerância da Associação Geral contra ex-adventistas. A Organização forneceu as informações distorcidas de que as autoridades dos Estados Unidos precisavam para condenar e executar os davidianos por suas crenças e práticas religiosas.
Vance Ferrell, que pesquisa o assunto desde 93, assegura que as investigações foram iniciadas oito meses antes da tragédia pela ATF e o Waco Tribune-Herald. "Nós sabemos, diz ele, que Shirley Burton, da Associação Geral da Igreja Adventista do Sétimo Dia, foi o instrumento responsável pelo início de toda a ação policial.
Shirley Burton, então Diretora de Comunicações da Asasociação Geral, com sede em Silver Spring, Maryland, disse que no começo da primavera de 92 alertou às autoridades governamentais sobre o risco de acontecer alguma coisa terrível em Waco. Ela lhes disse para irem lá e fazer alguma coisa.
Pelo menos duas reportagens indicam que, mais uma vez, a "rede adventista de fofoca e difamação" entrou em ação até que o assunto virasse caso de polícia a partir do escritório da irmã Shirley:
Fevereiro, Março e Abril, 1982: "Fortes rumores começaram a circular nos jornais e tevês da Califórnia e Austrália. Eu comecei a buscar e acumular informações sobre o grupo depois de um telefonema desesperador que recebi bem cedo da Austrália no sábado que antecedeu ao domingo de Páscoa. A mídia australiana noticiara o boato de que David Koresh teria convocado seus seguidores para um suicídio coletivo no domingo pela manhã como um supremo sacrifício para Deus. A divulgação e o anúncio da aplicação da lei parece tê-los feito desistir dos planos. Não se teve mais nenhuma notícia deles desde então." Shirley Burton - To Media Inquirers, 2 de Março de1993.
Shirley Burton, porta-voz da Igreja Adventista do Sétimo Dia, diz ter recebido um terrível telefonema da Austrália na véspera da Páscoa passada. Na linha estava um oficial da igreja para comunicar que no dia seguinte poderia ocorrer uma explosão de violência em Waco, vitimando inclusive dezenas de ex-adventistas. O homem teria recebido o alerta de alguém que tinha parentes na seita. Esses parentes temiam que pudesse ocorrer um suicídio coletivo, disse Burton, acrescentando que em sua mente surgiram as imagens da tragédia ocorrida nas Guianas em 1978, quando o pastor Jim Jones e 900 seguidores supostamente suicidaram. Autoridades da igreja preveniram a polícia de Waco e a Páscoa de 92 passou sem incidentes. Mas a paz teve final sangrento neste domingo, quando integrantes da seita foram acusados de atirar contra os agentes federais. - Washington Post, 3 de Março de 1993.
É interessante, diz Vance Ferrel, que as duas equipes de investigação começaram a trabalhar em 1992 um ou dois meses após a Associação Geral alertar as autoridades federais, estaduais e locais.
Na última primavera, oficiais da Igreja Adventista do Sétimo Dia ouviram de seus colegas em Sidney que os davidianos estavam planejando um suicídio coletivo para o domingo da páscoa, Quase ao mesmo tempo, o Departamento de Estado obteve a confirmação de fontes da Austrália que David Koresh estava estocando armas e planejando suicídio. O Estado passou essa informação para a ATF que começou a investigar em junho. - Newsweek, 15 de março de 1993.
Ao longo das investigações e durante o cerco, todas essas acusações contra os davidianos foram desmentidas: drogas, armas, abusos, agressividade, dissensão política... Como alguém escreveu, "aquela era uma comunidade interracial auto-sustentável de homens, mulheres e crianças, unidos por idéias não-convencionais sobre religião e sexo. Mas era também uma comunidade disposta a colaborar com as investigações da polícia, em que não foram encontradas nenhuma evidência de armas ilegais ou abuso sexual contra crianças. Mesmo assim, por várias razões indefensáveis, as agências governamentais não perceberam que não eram terroristas, mas apenas religiosos extremamente zelosos, adeptos de uma selvagem teologia apocalíptica."
Após o massacre, vieram as negativas. Clinton e Reno disseram que os próprios davidianos se mataram. Os oficiais procuram inocentar-se até hoje. Dizem que os seguidores de Koresh atiraram primeiro nos policiais do BATF (Bureau of Alcohol, Tobacco & Firearms). Mas diante de tantas mentiras do FBI e de outras autoridades envolvidas, é provável que os agentes mortos tenham sido feridos por balas de seus próprios colegas.
Foram bombardeados com música alta, som de coelhos sendo esganados e outros ruídos desagradáveis. Cortaram sua água e eletricidade. Helicópteros e tanques de guerra abriram caminho para o agente químico CS, que matou parte deles por asfixia e muitos outros, queimados. Depois vieram os tiros que mataram David Koresh e alguns de seus seguidores. Mulheres, crianças e dezenas de homens adultos, todo o grupo acabou carbonizado. Mesmo assim, a Associação Geral recolheu oferta especial apenas para ajudar as famílias dos agentes feridos e mortos na operação. E se calou a partir de então.
Sequer pararam para pensar que, como ex-adventistas, David Koresh e seus seguidores estavam convictos de que eram os remanescentes da verdadeira igreja. A religião pela qual deram a vida assemelhava-se muito à nossa. Nós também cremos que somos escolhidos por Deus; somos a igreja remanescente; somos os únicos que guardam os dez mandamentos; temos o espírito de profecia; somos capazes de interpretar como ninguém as profecias; entendemos melhor que todos os acontecimentos finais; somos imbatíveis em conhecimento bíblico, etc e etc...
Sequer pararam para pensar que os próximos, talvez, sejamos nós.