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"Fiz uma aliança com Deus: que ele não me mande visões, nem sonhos, nem mesmo anjos. Estou satisfeito com o dom das Escrituras Sagradas, que me dão instrução abundante e tudo o que preciso conhecer, tanto para esta vida quanto para o que há de vir." - Martinho Lutero
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sexta-feira, 16 de setembro de 2011

As Quinze "Provas Proféticas" de William Miller

por Eduardo Martínez Rancaño


Retrato de William Miller Publicado em 1841


O adventismo do sétimo dia sempre tem considerado favoravelmente a William Miller,[1] leigo batista que nos anos 30 e 40 do século XIX acordou ampla expectação na Nova Inglaterra com sua pregação do iminente fim do mundo. A biografia deste homem [2] contém, sem dúvida, detalhes comovedores que demonstram o sincero interesse que Miller tinha por compartilhar sensacionais notícias que a ele pessoalmente o tinham enchido de gozo. Que cristão não sentiria emoção ao saber da iminência do encontro face a face com o Senhor? Com maior ou menor felicidade, mas sem dúvida com absoluta sinceridade, Miller tentou contagiar seu entusiasmo a seus concidadãos a respeito da Segunda Vinda de Cristo, e em boa medida, conseguiu-o. 

As interioridades do millerismo dariam sem dúvida para escrever muitos livros, que abordariam o fenômeno a partir de diferentes pontos de vista. O objetivo deste artigo é bem mais modesto. Propõe-se unicamente expor e avaliar a sustentação ideológica original, aritmética, do millerismo tal como foi, antes da reelaboração e idealização que grupos religiosos posteriores fizeram da pregação de Miller. Tida conta do fracasso final do profetizado, e em que pese se considerarem herdeiros do millerismo, talvez seja compreensível que tais grupos se tenham distanciado um tanto de algumas das propostas tanto iniciais como finais do pai da criatura.[3]  

Na atualidade há poucos adventistas, e menos pessoas ainda do público geral, que saibam que William Miller chegou à conclusão de que o fim do mundo era iminente baseando-se em múltiplas evidências que ele creu encontrar na Bíblia. Diferentemente de alguns de seus descendentes ideológicos de nossos dias, Miller não encontrou somente uma profecia que o levasse primeiro a 1843 e, depois, a 1844. Em seus diversos discursos e escritos cronológico-proféticos, [4] William Miller creu encontrar 15 prova proféticas que profetizavam o fim do mundo para 1843. 

Como vários desses períodos, ou provas, ou indícios, utilizavam em realidade as mesmas operações matemáticas para atingir o ano 1843, convém agrupar as “provas” de Miller de acordo aos cálculos e raciocínios empregados, pelo que as “provas” de Miller eram, em realidade, cinco “períodos proféticos” que levariam a 1843, mais quatro cálculo parciais de maior complexidade que acabavam chegando a 1843 através de um conjunto de datas intermediárias. 

As Provas de Miller



Os parágrafos seguintes analisam a formulação das 15 “provas” dos “períodos proféticos” de Miller. 

1. Cálculos que permitem um salto direto de uma certa origem até 1843: 

a. Cálculos que utilizam um lapso de “sete tempos”. Todos eles usam como base a passagem de Jer. 15:4, que fala do desterro da raiz da maldade do rei Manassés, filho de Ezequias, ligado a Isa. 7:8, que fala do ataque de Rezín e Peka contra Acaz, o avô de Manassés, e 2 Crôn. 33:9-11, que fala novamente dos desvios de Manassés e de sua prisão na Babilônia. Segundo Miller, tudo isto teria que ser datado no 677 a.C., que se imaginava que era o mesmo que 677. Como, segundo Miller, “sete tempos” são 7 anos “proféticos”, cada um dos quais consta de 360 anos literais, o que perfaz um total de 2.520 anos, a operação matemática não pode ser mais precisa: 

− 677 + 2520 = 1843


O período de 2.520 anos que ele entendia começando em 677 a.C. estava predito em: 

i.    Lev. 26:18, 21, 24, 28, que fala das sete vezes (tempos) mais que Deus castigaria aos israelitas caso lhe desobedecessem (Prova 1).

ii.   Deut. 15:1, 2 e Jer. 34:14, que falam do ano sabático (sete anos) (Prova 2).

iii.  Ezeq. 39:9, 10, que fala de 7 anos nos quais os israelitas estariam queimando as armas de seus inimigos (Prova 3).

b.   O cálculo de seis milênios desde a queda de Adão (Prova 4). Seu silogismo probatório estava constituído pelos textos de Êxo. 31:13-17 e Heb. 4:4, 9-11, que falam da observância do sábado, junto com 2 Ped. 3:8, que fala da magnanimidade do Senhor e ilustra que, para Ele, um dia é como mil anos e mil anos como um dia. Miller acrescenta que o milênio de Apoc. 20:6  é o antítipo do sábado semanal. Como cria que a segunda vinda era anterior ao milênio, a conclusão inevitável era que a segunda vinda haveria de ocorrer ao fim do sexto milênio. Miller entendia que a queda de Adão acontecera em 4157 a.C., de modo que realizava esta operação aritmética:

- 4157 + 6000 = 1843


[1] Veja-se, por exemplo, Ellen G. WHITE, O Conflito dos Séculos, pp. 363-390; Primeiros Escritos, pp. 229-234.

[2] Veja-se a quase exaustiva análise de LeRoy Edwin FROOM, The Prophetic Faith of Our Fathers, Vol. IV (Washington, D.C.: Review and Herald, 1982), pp. 455-851.

[3] Por exemplo, falando da amargura de Miller ao contemplar a falta de unidade entre seus seguidores depois do desapontamento de 1844, Ellen G. WHITE disse que “...o sofrimento consumiu-lhe as forças. Eu vi líderes observando-o, temerosos de que ele aceitasse a mensagem do terceiro anjo e os mandamentos de Deus. E quando ele se inclinava para a luz do Céu, esses homens elaboravam algum plano para afastar-lhe a mente. Uma influência humana foi exercida para conservá-lo em trevas e reter sua influência entre os que se opunham à verdade. Finalmente Guilherme Miller levantou a sua voz contra a luz do Céu. Falhou ao não receber a mensagem que teria explicado plenamente o seu desapontamento e lançado luz e glória sobre o passado, o que lhe teria restaurado as energias perdidas, iluminado sua esperança e o levado a glorificar a Deus. Ele se apoiou na humana sabedoria em vez da sabedoria divina; mas, enfraquecido por árduos esforços na causa do Seu Mestre e pela idade, não foi tão responsabilizado como os que o afastaram da verdade [...].

“Deus [...] e escondeu-o na sepultura, afastando-o daqueles que o estavam constantemente desviando da verdade. Moisés errou quando estava prestes a entrar na Terra prometida. Assim também, eu vi que Guilherme Miller errou quando já estava perto de entrar na Canaã celestial, ao permitir que sua influência fosse contra a verdade. Outros levaram-no a isto; outros darão conta por isto. Mas os anjos vigiam o precioso pó deste servo de Deus, e ele ressurgirá ao som da última trombeta.” Primeiros Escritos, pág. 257/258.

[4] As “provas” de Miller apareceram em várias obras escritas por ele e alguns de seus seguidores. Assim, William MILLER, Evidences from Scripture and History of the Second Coming of Christ (Brandon: Vermont Telegraph Office, 1833); Evidence From Scripture and History of the Second Coming of Christ, About the Year 1843 (Troy: Kemble & Hooper, 1836); Remarks on Revelations Thirteenth, Seventeenth and Eighteenth (Boston: Joshua V. Himes, 1844); Wm. Miller’s Apology and Defence (Boston: J. V. Himes, 1845); Sylvester BLISS, Memoirs of William Miller (Boston: Joshua V. Himes, 1853). A numeração particular das “provas” adotada neste artigo corresponde à ordem apresentada na seção intitulada “Time Proved in Fifteen Different Ways” [O Tempo Provado de Quinze Maneiras Diferentes], escrita em sua época pelo próprio William Miller e reconhecida no artigoo “Synopsis of Miller’s Views”, que se imprimiu em Signs of the Times millerita de 25 de janeiro de 1843, páginas 145-150. Resulta chamativo que esta detalhada e interessante análise do pensamento cronológico de Miller não seja proveitosa para nada na quase exaustiva apresentação de Froom.

CONTINUA...

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