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"Fiz uma aliança com Deus: que ele não me mande visões, nem sonhos, nem mesmo anjos. Estou satisfeito com o dom das Escrituras Sagradas, que me dão instrução abundante e tudo o que preciso conhecer, tanto para esta vida quanto para o que há de vir." - Martinho Lutero
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sábado, 24 de setembro de 2011

Capítulo 01 - Uma Profetisa Entre Profetas

Capítulo 1

Uma profetisa Entre Profetas


Ellen Harmon era uma frágil garota de 13 anos de idade quando seus inocentes e jovens ouvidos ouviram pela primeira vez o espantoso anúncio de que o fim do mundo estava muito próximo. Mal havia passado quatro anos desde que uma colega de escola lhe tinha atirado uma pedra ao rosto – um incidente que mudou sua vida para sempre. O golpe que sofreu lhe causou uma severa lesão cerebral que ameaçou sua vida, e de cujos efeitos jamais se recuperou por completo. O trauma cerebral foi tão intenso que progrediu pouco na escola e, finalmente, após os doze anos, desistiu de freqüentar a escola formalmente.2 Apesar de sua incapacidade para freqüentar a escola, rapidamente desenvolveu interesses em outras áreas como a profecia bíblica. Durante esta época, a pregação de William Miller, um fazendeiro convertido em pregador, cativou a muitos no nordeste dos Estados Unidos, incluindo à família Harmon. No princípio, Miller predisse que o fim do mundo ocorreria em 1843 e, mais tarde, mudou a data para 22 de outubro de 1844. Ellen Harmon e sua família foram arrebatados pelo fervor religioso daquilo que se tornaria conhecido como como o Clamor de Meia-noite, movimento millerista e movimento adventista.

Ellen cresceu em uma atmosfera literalmente sobrecarregada de emoção religiosa. Ser reconhecida como profetisa de Deus seria considerado uma grande honra entre os cristãos daquele tempo, e muitos jovens aspiravam a esse chamado. Em princípios do século dezenove, nos Estados Unidos proliferavam “profetas” de toda a classe e descrição. Esta era uma época em que os visionarios e profetas eram populares e atraíam grande número de partidários.

Durante esta época, Joseph Smith, o fundador dos mórmons, recebia “revelações” do mensageiro angélico Moroni. Smith advertia a seus seguidores que a segunda vinda de Cristo estava muito próxima. Por isso que seus seguidores se tornaram conhecidos conhecidos como os Santos dos Últimos Dias.3

Na década de 1830, propagou-se uma epidemia de visões através das comunas de Quakers. Jovens moças “começavam a cantar, a falar de anjos e a descrever uma viagem que estavam a fazer aos lugares celestiais e sob guia espiritual”. Com frequência, os que eram assim afetados “caíam ao solo, onde jaziam como mortos, ou lutavam agoniados, até que alguém que estivesse perto levatasse-lhes e então começavam a falar com grande clareza e compostura”.4

O movimento millerista teve sua própria quota de profetas. John Starkweather, millerista e pastor assistente na capela de Joshua Himes, em Chardon Street, experimentava o que alguns críticos descreviam como ataque “catalépticos e epilépticos” que desconcertavam em grande parte a seus colegas mais calmos. Finalmente, foi expulso da capela quando seus dons espirituais passaram a ser contagiosos.5

A Conexão William Ellis Foy

Foi durante estes anos impresionáveis da adolescência quando a jovem Ellen se associou com os “profetas” do movimento millerista. Em 1835, William E. Foy, um afro-norte-americano que vivia na Nova Inglaterra, entregou seu coração a Cristo e tornou-se em membro da Igreja Batista da Livre Vontade [Freewill Baptist Church]. Em 1842, enquanto se preparava para tomar as sagradas ordens como ministro episcopal, teve duas visões. Começou a viajar pela área local, relatando suas visões a vários grupos milleristas. O historiador adventista J. N. Loughborough descreve esta popularidade de Foy:

“Com bom domínio do idioma e excelente capacidade descritiva, causava sensação aonde quer que fosse. Por convite, ia de cidade em cidade contando as coisas maravilhosas que tinha visto; e, para dar conta das vastas multidões que se reuniam para lhe escutar, reservavam-se espaçosas salas, onde lhes relatava a milhares de pessoas o que se lhe tinha mostrado do mundo celestial...”6

A jovem Ellen foi para ouvir falar o profeta Foy no Beethoven Hall, em sua terra natal de Portland, Maine. Mais tarde, ela também viajou com seu pai a fim de ouvir Foy na próxima cidade de Cape Elizabeth.7 Sem dúvida, ela ficou cativada enquanto Foy descrevia como tinha abandonado seu corpo e presenciado as belezas do paraíso. Ela provavelmente ficou enfeitiçada ouvindo Foy descrever como os anjos guardiões na terra se comunicam com os anjos no céu, os anjos encarregados de registar as ações dos seres humanos:

“Então vi anjos que ascendiam e desciam desde a terra e para a terra; levavam notícias aos anjos registradores.” (pág. 20)

Para as pessoas da década de 1840, isto tinha perfeito sentido. Se uma pessoa queria pôr-se em contato com alguém situado a grande distância, enviava um mensageiro ou uma carta por correio. O telégrafo tinha sido inventado só recentemente e o rádio e o telefone ainda estavam no futuro. De que outro modo poderiam os anjos guardiões na terra comunicar-se com os anjos registradores no céu, se não era voando de cá para lá e de lá para cá, levando mensagens?

Por volta de 1844, Foy tinha-se feito um nome para si mesmo como profeta. Quando este profeta experiente e consagrado ouviu dizer que Ellen Harmon, a jovem de dezessete anos, tivera sua primeira visão, provavelmente creu ser seu dever visitá-la para lhe oferecer alguma consulta ou algumas palavras de conselho, de profeta a profeta. De modo que se fizeram arranjos para uma entrevista e os dois trocaram pensamentos e ideia.

Na noite seguinte a esta entrevista, Ellen devia falar de sua primeira visão durante uma reunião que teria lugar a leste de Portland. Sem que ela o soubesse, Foy estava entre o auditório. Ellen começou a falar, e à metade de sua apresentação, Foy, incapaz de conter-se por mais tempo, pôs-se de pé de um salto e declarou que o que ela estava a contar era exatamente o que ele tivera visto.8  Foy não fez nenhuma menção de que ele e Ellen se haviam encontrado no dia anterior para trocar notas proféticas. Provavelmente não queria envergonhar à jovem profetisa, nem queria que o auditório pensasse que houvera alguma maquinação entre eles. Após fazer o anúncio, excusou-se para se ausentar da reunião e, que se saiba, não teve nenhum outro contato com ela pelo resto de sua vida.

Mais tarde, em 1845, quando Foy publicou suas visões em um folheto, registrou-as como propriedade literária. Tinha aprendido sua lição. As visões de um profeta são uma importante propriedade intelectual! Sua experiência com Ellen Harmon provavelmente deixou-lhe um pouquinho cauteloso em relação aos direitos de propriedade profética. Há poucas dúvidas de que Ellen apreciava a cópia das visões de Foy que ela possuía.9 As esplêndidas descrições do céu que Foy fazia devem tê-la emocionado. A verdade é que, apesar do registro de propriedade literária, quando em alguns anos mais tarde a “irmã White” escrevia suas próprias visões, suas descrições do céu eram notoriamente similares às de Foy:

    Ellen G. White
Christian Experience and Views of
Mrs. White (1851)
William E. Foy
The Christian Experience of William 
Ellis Foy (1845)
Todos os anjos encarregados de visitar a terra têm na mão um cartão de ouro, que apresentam aos anjos muito próximo da cidade ao entrar e ao sair. (pp. 37, 39). 
Então contemplei inúmeros milhões de seres resplandecentes que traziam cartões nas mãos. Estes seres resplandecentes eram nossos guias. Os cartões que eles levavam brilhavam mais que o sol; e puseram-nos em nossas mãos, mas não pude ler o nome nelas. (pp. 10, 11).
Em ambos os lados da carruagem tinha asas e, embaixo dele, rodas. E ao rodar a carruagem para acima, as rodas exclamavam Santo e, ao moverem-se as asas, exclamavam Santo, e a comitiva de anjos santos ao redor da nuvem exclamava Santo, Santo, Santo, Senhor Deus Todo-Poderoso. (p. 35). 
Tinha inúmeros milhões de anjos resplandecentes, cujas asas eram como o ouro puro, e cantavam em voz alta, enquanto suas asas exclamavam, Santo. (p. 18). 
E ao avançar o carro, as rodas clamavam: “Santo”, e as asas, ao se moverem, clamavam, “Santo”, e o séquito de santos anjos ao redor da nuvem clamavam: “Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus o Todo-Poderoso!” Primeiros Escritos, pág. 35, Maranatha, p. 303. 
Por trás do anjo contemplei inúmeros milhões de brilhantes carruagens. Cada carro tinha quatro asas como de fogo ardente, e um anjo seguia depois do carro, e as asas do carro e as asas do anjo exclamavam a uma voz, dizendo: “santo”. (pág. 18). 
De um lado do rio havia um tronco de árvore e um tronco do outro lado do rio, ambos de ouro puro, transparente... Seus ramos se inclinavam para o lugar onde nós estávamos de pé, e o fruto era glorioso; parecia ouro misturado com prata. (pág. 17). 
Depois contemplei, no meio deste lugar indescritível, uma árvore, cujo tronco era como vidro transparente, e os ramos eram como ouro transparente, que se estendiam sobre tudo neste lugar ilimitado... o fruto parecia cachos de uvas em imagens de ouro puro. (pp. 14, 15). 
Pedi a Jesus que me permitisse comer do fruto. Disse-me: “Agora não. Os que comem do fruto desta terra já não regressam mais à terra... (pág. 17). 
Com voz encantadora, o guia me falou e disse-me: “Os que comem do fruto desta árvore já não regressam mais à terra”. (p. 15). 
...em sua mão direita tinha uma foice aguda; em sua esquerda, uma trombeta de prata. (pág. 16). 
Contra seu peito e através de sua mão esquerda tinha como uma trombeta de prata pura...(p. 18). 
Aqui, sobre o mar de vidro, os 144.000 estavam de pé em um quadrado perfeito. Alguns deles tinham coroas muito brilhantes, as de outros não o eram tanto... E todos estavam cobertos com um glorioso manto branco que lhes caía desde os ombros até os pés. (pág. 11). 
Depois, vi no meio do lugar a uma inumerável multidão, vestida de roupas brancas, de pé em um quadrado perfeito, tendo sobre suas cabeças coroas de glória imperecível. (pág. 19). 
Jesus levantou o potente e glorioso braço, segurou o portal de pérolas, fê-lo girar sobre seus luzentes gonzos, e nos disse: "Lavastes vossas vestes em Meu sangue, permanecestes firmes pela Minha verdade; entrai". Todos entramos e sentimos ter perfeito direito à cidade. Primeiros Escritos, (pp. 16 e 17).
Adiante da porta estava de pé um anjo alto e forte coberto com uma vestidura pura e branca; seus olhos eram como fogo ardente, e levava sobre sua cabeça uma coroa que alumiava esta planície extraordinária. O anjo levantou sua mão direita, segurou a porta e abriu-a; e ao girar a porta sobre seus reluzentes gonzos, o anjo exclamou em alta voz à hoste celestial: “Todos, sede bem-vindos!” Então, os anjos guardiões no meio dos santos tocaram um cântico de triunfo, e os santos, tanto grandes como pequenos, cantaram em alta voz e passaram da porta adentro... (pág. 10). 

Depois que Foy contemplou as belezas do céu em visão, seu anjo lhe ordenou:

“Teu espírito deve regressar ao mundo e tu deves revelar estas coisas que tens visto...”10

Foy provavelmente não se deu conta nesse momento, mas dentro de uns poucos anos, que o guia de Ellen White iria dizer a ela, como em um eco, as mesmas palavras:

“Disse: Deves regressar novamente à terra, e contar a outros o que eu te revelei.”11


O historiador Adventista do Sétimo Dia J. N. Loughborough assegura que, pouco depois de 1845, Foy adoeceu e morreu, passando, portanto, a bengala de relevo profético a Ellen G. White, que tomou para si o chamado de Foy como profeta adventista. Este é um exemplo de um dos nefastos mitos que acompanharam a formação de um profeta. Nada poderia estar mais longe da verdade. Foy não adoeceu e morreu. Não há nenhuma indicação de que Foy jamais se retratara  nem abandonasse seu chamado. Em realidade, o Rev. William Ellis Foy pemaneceu no ministério cristão, pastoreando várias Igrejas Batistas da Livre Vontade [Freewill Baptist Church], através do estado do Maine, e testemunhando em favor do Senhor até sua morte, 48 anos mais tarde, em 1893.12


Outros Visionários Milleristas


Ellen também teve um profeta em sua numerosa família. Hazen Foss, o cunhado de sua irmã Mary, afirmava ter recebido uma visão de Deus. Ainda que alguns acreditassem nos profetas, não todos no movimento millerista sentiam-se favoravelmente inclinados a eles. Nos dias finais desse movimento, havia tanta emoção religiosa que o dirigente millerista Joshua Himes se queixou de estar submerso em “mesmerismo de sete pés (2,13m) de profundidade”. 13

O fanatismo continuou atormentando aos milleristas ainda após a decepção do 22 de outubro, e parecia particularmente prevalecente entre os crentes da “porta fechada”. Estes partidários da “porta fechada” eram membros do movimento adventista que achavam que a porta da salvação se tinha fechado para sempre em 22 de outubro de 1844 para todos os que haviam recusado abraçar a proclamaçãon de Miller quanto ao tempo. Foi entre estes crentes na “porta fechada” onde Ellen Harmon surgiria mais tarde até atingir prominência como a principal profetisa do grupo.

Em Springwater Valley, estado de New York, um afro-americano, partidário da “porta fechada”, chamado Houston afirmou que Deus às vezes lhe falava em visões. O grupo da porta fechada na cidade natal de Ellen Harmon, em Portland, Maine, era ainda mais famoso nos círculos milleristas. Joshua Himes lamentava a “contínua introdução de tolices visionárias” por parte deste grupo.14  Em março de 1845, Himes informou a Miller que uma tal irmã Clemons, da cidade natal de Ellen Harmon, em Portland, Maine, “tornou-se muito visionária e tem escandalizado a quase todos os bons amigo aqui.” Cerca de duas semanas mais tarde, Himes informou que outra irmã de Portland tivera uma visão mostrando-lhe que a irmã Clemons era do diabo. Himes chegou à seguinte conclusão: “As coisas andam mau em Portland.”15



Notas:

2. Ellen White, Testemunhes, Vol. 1, p. 13.

3. Segundo Smith, seus seguidores eram os santos de Deus e todas as outras igreja eram “pagãs” ou gentílicas.

4. The People Called Shakers, pp. 152-153.

5. Ronald Numbers, Prophetess of Health, pp. 16-18.

6. J. N. Loughborough, The Great Second Advent Movement, p. 145.

7. Manuscript Releases 17, pp. 96-97, Ms 131, 1906, pp. 1, 4-6. Ellen G. White Estate, Washington, D. C. (dado à luz pública o 4 de junho de 1987).

8. Ibid.

9. Ibid., pp. 95-96.

10. William E. Foy, The Christian Experience of William E. Foy, 1845, p. 20.

11. The Day-Star, January 24, 1846, “Letter from Sister Harmon, Portland, Me., Dec. 20, 1845”.

12. Em seu livro The Great Second Advent Movement, o historiador adventista J. N. Loughborough descreve o processo mediante o qual Ellen Harmon foi eleita profetisa de Deus. Loughborough afirma que Deus escolheu a Foy como a primeira pessoa em receber visões. Após o que Foy fracassou em cumprir sua missão, adoeceu e morreu, e a bengala de relevo profético passou a Hazen Foss, que então recebeu uma visão. Após a recusa de Foss em relatar sua visão, Deus se voltou para “a mais débil entre os débeis”: Ellen Gould Harmon. Há muitos problemas com este raciocínio. Primeiro, e mais importante, Foy não morreu pouco depois da decepção, como supõe Loughborough. Foy continuou no ministério cristão pastoreando várias igrejas batistas livres, através do estado de Maine, testemunhando em favor do Senhor durante sua vida até sua morte em 9 de novembro de 1893, com idade de 75 anos. Sua lápide pode ser vista cemitério de Birch Tree, em East Sullivan, Maine. Segundo, o fato de que as visões de Foy indicam vida após a morte levaria muitos adventistas a questionar se as visões de Foy vieram realmente de Deus (veja-se Foy, pp. 11-12).

13. Numbers, p. 18.

14. Ibid.

15. Ibid.

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