Somente Cristo! Somente a Bíblia!

"Fiz uma aliança com Deus: que ele não me mande visões, nem sonhos, nem mesmo anjos. Estou satisfeito com o dom das Escrituras Sagradas, que me dão instrução abundante e tudo o que preciso conhecer, tanto para esta vida quanto para o que há de vir." - Martinho Lutero
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sábado, 1 de dezembro de 2007

ADVENTISTAS QUE RESISTIRAM A HITLER

O Que Aconteceu com os Adventistas que Disseram NÃO a Hitler - 3

Condenado à morte por recusar-se a lutar na guerra

Anton Brugger

Informação obtida de Esther, noiva de Anton Brugger:

Batizado em Wörthersee (perto de Klagenfurt, Áustria), em 1922, Anton foi membro ativo e animado da Igreja da Reforma. Quando eclodiu a guerra em 1939, conseguiu fugir para a Itália. Esther o encontrou certo Sábado numa reunião da Igreja Adventista de Trieste. Brugger apresentou a Esther a verdade pregada pelo Movimento de Reforma, a qual ela transmitiu a outros. Com a ajuda de Deus, foram estabelecidos grupos reformistas em Trieste e Milão.

A Itália ainda não havia entrado na guerra. O irmão Brugger foi a Gênova, e tentou embarcar num navio para os Estados Unidos. Mas não foi isso que aconteceu. Durante curta escala em Milão, onde o irmão Müller estava instruindo um grupo na mensagem de reforma, Anton foi preso pela polícia e, depois de ser mantido sob custódia por um mês, voltou para a Áustria, então sob domínio alemão.

Na Áustria, com sinistro pressentimento, por vários meses foi padeiro. Um dia o receio se tornou realidade: Foi convocado. Tendo-se recusado a prestar serviço militar, foi levado ao tribunal em Salzburg, onde foi condenado a passar dois anos num campo de concentração.

Cumprida a pena, foi novamente recrutado. Recusando-se novamente, e dando claro testemunho da verdade presente, foi levado à corte marcial em Berlim, onde foi condenado à morte como objetor de consciência. (Adaptado do livro And Follow Their Faith, págs. 40 e 41).

Querida mãe, hoje é meu último dia...

Transcrevemos a seguir duas cartas de Anton Brugger, escritas na prisão de Brandenburg-Gört, em 3 de fevereiro de 1943:

[221]

Minha querida e estimada mãe:

Peço-lhe que, ao receber estas linhas de meu adeus, não fique abatida, mas que seja forte e tenha bom ânimo. Recebi sua última carta amável, a qual me trouxe grande conforto. Seus esforços bem-intencionados em favor de liberdade condicional provavelmente serão inúteis. Ainda que obtivesse resultado, seria tarde demais, porque hoje é meu último dia. Sim, a situação realmente se tornou séria. Às 6h00 horas desta tarde minha sentença será executada.

Ah!, querida mãe, meu coração sofre muito pela senhora, que ainda terá de passar esse terrível pesar. Embora eu deseje poupar-lhe tudo isso, não posso agir de outro modo. Tenho de obedecer a consciência.

Desejaria muito fazer feliz seu coração maternal, fiel, nos dias da sua velhice, embelezar e tranqüilizar a sua vida. Mas já que este foi o decreto, não nos entristeçamos. Recebamos pacientemente das mãos de Deus esse fardo. Como sempre passando necessidade, não nos foi concedido permanecer juntos por muito tempo nesta vida.

Por isso, querida mãe, conforte-se na bem-aventurada esperança de que algum dia estaremos juntos para sempre com o Senhor. Essa certeza e esperança é meu maior conforto e força nesta hora de severa provação. Sei que meu misericordioso e benevolente Senhor e Salvador Jesus Cristo, o fiel Deus que me redimiu e que tem estado conosco até agora, também me concederá força e poder para a derradeira e dolorosa caminhada.

Peço-lhe encarecidamente: não se desespere. Confie no Senhor. Ele será seu conforto e auxílio. Não a abandonará. Faça tudo quanto puder para servi-Lo, a fim de que possamos ver-nos outra vez.

Peço-lhe que faça esforços especiais para lançar fora o ressentimento contra quem quer que a tenha ofendido. Refiro-me especificamente aos parentes de Saalfelden. Perdoe-lhes de todo o coração e esqueça todo o mal que fizeram. Lembre-se do que disse o Salvador.

Se não lhes perdoar as ofensas, não será perdoada. Deus nos trata como nós tratamos os semelhantes.

Peça a Deus que sempre lhe conceda força para vencer, e não desfaleça na luta contra o pecado. Então o Senhor lhe dará vitória.

Tenha sempre em mente que tudo está em jogo, mesmo a vida eterna, a qual só podemos obter se vencermos a nós mesmos e seguirmos o Salvador em Sua mansidão e humildade. Minha última súplica ao Senhor: que a senhora seja salva para o presente e para a eternidade.

Espero que tenha recebido também minhas cartas anteriores.

Tenho mais um pedido: Quero ser sepultado no cemitério municipal de Salzburg. Quando eu estiver lá, a senhora poderá visitar [222] de vez em quando o meu jazigo. Para isso, precisará enviar uma petição ao departamento da polícia distrital de Brandenburg-Havel, para que enviem para Salzburg a urna de seu filho que morreu em 3 de fevereiro de 1943, na prisão de Brandenburg. Então a urna será enviada ao departamento da polícia de Salzburg com o débito das despesas, que serão pequenas. Só depois disso será permitido o funeral.

Vá aos queridos Bliebergers e deixe que tomem informações na polícia de Salzburg. Façam todos os preparativos e realizem o último serviço de amor por mim. Que o Senhor abençoe grandemente a eles e a seus filhos!

Saúdo também a todos os queridos de toda parte. Que o Senhor os abençoe e guarde! Com o profundo amor de filho, saúdo-a na esperança de vê-la outra vez e a todos os nossos queridos na presença do Senhor. Beija-a o seu Anton. — And Follow Their Faith, págs. 48 e 49.

Prefiro o castigo da morte, marcada para hoje...

Minha amada Esther, estimado tesouro:

Lamentavelmente não foi possível ver-nos novamente. Ah, como desejei mais uma vez contemplar o seu lindo rosto e dirigir-lhe algumas palavras. Guardo sempre comigo sua bela fotografia.

Na contracapa da minha Bíblia o seu retrato está diante de mim.

Agora tome a Bíblia como lembrança minha. Espero tenha recebido minha última carta. Quando for ter com minha mãe, ela entregará estas cartas a você.

Nunca nos passou pela mente que nosso encontro em Niederroden seria o último. Eu sempre tive pressentimento de que grave e severa provação estava reservada para mim. Se não lhe disse nada, foi para não amedrontá-la. O que eu há muito receava e esperava acontecer tornou-se agora realidade. Ah!, quão alegremente eu desejaria viver para trabalhar e beneficiar os outros. Como seria bom trabalhar com você na prática do bem. Não poderia haver para mim felicidade mais completa do que essa.

Angustio-me só em pensar na tristeza de minha querida e boa mãe. Peço-lhe encarecidamente que cuide dela e a conforte. Ah!, eu sei que a você, igualmente, querida Esther, golpearei severamente.

Não desfaleça, porém. Antes, console-se no Senhor. Devemos receber com paciência das mãos dEle esse triste fim. Ele sabe o motivo por que nos permitiu sobreviesse tudo isso. Não há outro caminho a escolher. Não é possível, de acordo com a minha fé, tomar parte na guerra. Eu poderia ficar livre se apenas me submetesse a obedecer sem reservas a todas as ordens do governo, mas isso não posso [223] fazer sem conflito com a consciência.

Prefiro, portanto, sofrer o castigo da morte, marcada para hoje, 3 de fevereiro de 1943, às 6 horas da tarde. Embora seja penoso, o Senhor terá misericórdia de mim e me ajudará até o fim. Já que o desejo de nosso coração de estar unidos na Terra tornou-se agora impossível por essa realidade triste, devemos confortar-nos com a preciosa esperança de rever-nos no Senhor.

Confio na graça e na misericórdia do Salvador, que Ele me aceitará e graciosamente perdoará os meus pecados. Seja também fiel ao Senhor Jesus. Ame-O e sirva-O com todas as forças. Não se assombre, antes, conforte-se. Depois da vinda do Senhor ninguém poderá mais nos separar, nem a dor poderá nos acometer.

Saudações de minha parte a todos os queridos. Meu coração tem estado sempre com eles. Transmita especialmente recordações minhas a seus queridos pais e dileto irmão. ...

Eu ficaria contente em ser sepultado na terra, mas todos os executados aqui passam pelo crematório. Já solicitei à minha mãe que peça permissão para sepultar a urna com minhas cinzas em Salzburg, pois esse é o melhor lugar. Espero não ter vivido em vão.

Agora, querida, amada minha, que o Senhor abençoe a você e aos seus queridos, e a proteja e ajude misericordiosamente para que possamos ver-nos outra vez para sempre ao lado dEle em Seu glorioso reino de paz. Amo você com ternura até o fim. Adeus, querida, Auf Wiedersehen! O seu Anton. — And Follow Their Faith, págs. 49-51.

Encontrou um ministro adventista, soldado de Hitler

Arnold Seelbach

Certo dia em 1938, o irmão Seelbach, recém-liberto da prisão, caminhava meditando para a estação do trem. Fazendo uma revisão de tudo quanto havia passado, parecia-lhe sonho estar de novo em liberdade.

Quantas vezes fora no campo de concentração posto junto à parede para ser fuzilado! Diariamente a vida estava em perigo.

Uma vez quiseram enterrá-lo vivo, contou ele. Além disso, não fazia muito, havia sido trancado numa cela gelada, tão escura que não podia ver as mãos diante dos olhos. Sobreviveu pela graça de Deus, apenas com uma porção de pão seco e água. Quão grande a alegria quando, no nono dia, o ferrolho foi corrido e a porta aberta. O acontecimento, porém, não durou muito.

Ao sair da cela horrível, que sentimento apoderou-se dele ao ver 300 prisioneiros alinhados e 350 homens da SS, Schutzstafel, guarda de elite dos nazistas, armados, junto ao portão! O comandante, de pé no meio do pátio, chamou-o pelo nome. Puseram-no sobre a mesa de tortura. Amarraram-no fortemente de pés e mãos, e a ordem do comandante teve de ser cumprida. [224]

Dois homens da SS, brandindo chicotes de açoitar cavalo, golpearam-no 15 vezes nas nádegas e nas costas até deixá-lo quase sem vida. Enquanto se contorcia de indescritível dor, eles o lançaram novamente na cela horrível. Sozinho, sem apoio humano, permaneceu ali sobre o pavimento frio de pedra. Nenhuma palavra de conforto lhe foi dita. Os homens da SS lhe entregaram uma corda com o lembrete de que jamais sairia vivo daquela masmorra. Permaneceu na cela escura por 21 dias.

O sofrimento parecia haver acabado. Assim pensava. Estava livre de novo. À distância, contemplava a estação ferroviária. Seria sonho? Beliscava a mão e o rosto para se certificar de que não estava dormindo. Não, não era sonho. Era realidade. Às 2 horas da madrugada chegou a casa. Reunião de família! Que alegria!

Triste é dizer, a alegria não durou. O laço de família mais uma vez foi quebrado. No dia 2 de novembro de 1938, o irmão Seelbach teve de apresentar-se novamente para cumprir exigência governamental contrária à sua convicção. Havia apenas uma coisa a fazer: permanecer leal a Deus, custasse o que custasse.

Em 24 de outubro ele deu adeus a tudo quanto lhe era mais querido.

Ah! quão difícil foi, conforme conta, especialmente quando apertou a mão trêmula do pai e da mãe pela última vez. Viu seus lábios se moverem e, embora não tenha ouvido nenhum som, compreendeu o que desejavam dizer. Uma vez mais acenou à distância para o lar. Quando o veria de novo? pensou.

Obscuro e incerto era o futuro. Após longa jornada, chegou à fronteira de Luxemburgo. À frente estava o rio Sauer. Às 11h30m da noite pôs os pés na água gelada. As rochas eram muito escorregadias.

A corrente era tão forte que sentiu não seria capaz de suster-se. A bagagem que levava ficou encharcada, mas ele sentiu-se feliz em poder alcançar a outra margem. Em seguida, agradeceu ao Pai celestial, que o havia ajudado a cruzar a fronteira para Luxemburgo.

No dia seguinte passou, outra vez ilegalmente, para a fronteira da França. Que sensação de temor lhe sobreveio quando viu um oficial da polícia dirigindo-se para ele. Clamou a Deus por auxílio. E que sucedeu? O policial virou-se e seguiu para outra direção.

Na França o irmão Seelbach experimentou realmente a promessa de Mateus 19:29: "E todo o que tiver deixado casas, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe ... por amor do Meu nome, receberá cem vezes tanto, e herdará a vida eterna." Sim, ali foi recebido de maneira tão cordial que não conseguia ser grato a Deus o tanto quanto a alma pedia. [225]

O Diabo, porém, não queria que gozasse paz e alegria. Onde quer que se estabelecesse, alguém o delatava. Mas o Senhor o ajudava de tal maneira que, poucas horas antes de a polícia chegar, ele estava num lugar diferente.

Finalmente, foi obrigado a deixar a França e fugir para a Holanda, em maio de 1939, passando por Luxemburgo e Bélgica. Em 29 de dezembro de 1939, todos os refugiados alemães, e também o irmão Seelbach, foram confinados num campo de concentração.

Em 14 de maio de 1940, passaram momentos terríveis quando os alemães se apoderaram desse campo com 350 judeus e 25 desertores. Imediatamente os desertores foram fuzilados. O irmão Seelbach também foi condenado à morte. Mas um milagre aconteceu. O Deus onipotente possibilitou-lhe a fuga.

Depois de escapar do campo de Hoek, na Holanda, em 18 de maio de 1940, ficou escondido em casas de irmãos da fé. Entretanto, o Diabo, não estava contente. Novamente uma traição. Enviaram um bilhete anônimo à polícia. Outra vez Seelbach foi caçado como fera. Assim continuou mês após mês, muitas vezes obrigado a esconder-se por dias e noites em florestas e cavernas sob frio rigoroso.

Quando as tropas inglesas lutavam para libertar a Bélgica em setembro de 1944, a tempestade desencadeou mais violentamente sobre a Holanda. Por toda parte os homens da SS rastreavam a região à procura de vítimas para abater.

A fim de não cair nas mãos desses algozes, no derradeiro minuto, através da linha de fogo, nosso irmão escapou para a Bélgica em 14 de setembro de 1944. Então, contra sua expectativa, foi detido pelos ingleses. Mas o Senhor o confortou com João 13:7: "O que Eu faço, tu não o sabes agora; mas depois o entenderás."

Embora a princípio ficasse triste, depois de todas essas lutas, alegrou-se, pois lhe foi permitido ser testemunha de Cristo. Com freqüência conseguia proclamar a mensagem de Deus para estes últimos dias para 300 ou 400 homens.

Certa vez o auditório chegou a mais de mil pessoas quando falou sobre o tema "Que nos trará o futuro?" Muitos, chorando, levantaram as mãos, prometendo a Deus aceitar a verdade. Três começaram a guardar o Sábado quando nosso irmão ainda se encontrava ali.

No campo de internamento, o irmão Seelbach encontrou também um conhecido ministro da denominação Adventista, que, sendo soldado de Hitler, ali estava como prisioneiro de guerra. Ele cria na vitória final do "Führer", mas então decepcionado, tinha vergonha de si mesmo. [226]

Após 15 meses de internamento, o irmão Seelbach foi convocado para uma audiência. O Diabo insistia em trabalhar contra ele, pois o oficial encarregado, que tinha autoridade para libertá-lo, não queria examinar as evidências de sua inocência. Em vista da situação, a igreja começou a orar fervorosamente em favor desse irmão.

Ele também passou uma noite inteira lutando com Deus em oração. Na manhã seguinte, foi mais uma vez convocado para audiência. Cheio de fé, recorreu ao Pai celestial e suplicou ajuda. Que aconteceu? Sem dizer palavra, libertaram-no. O irmão Seelbach encerrou seu relato exclamando: "Bendito seja por toda a eternidade o nome de Jesus de Nazaré!"

A Gestapo exigiu o endereço de todos os irmãos

Alfred Münch

Certo dia, numa campanha de colportagem, o irmão Hans Fleschutz vendeu o livro Auf Gottes Wegen (Nos Caminhos de Deus) a uma senhora idosa de Hassloch. Quando soube que ele era adventista, perguntou se conhecia o irmão Münch. O colportor respondeu que conhecia a esposa e os filhos dele. Ela então quis saber onde Münch se encontrava. Fleschutz contou que o irmão Münch houvera sido mártir por sua fé num campo de concentração.

Ao ouvir isso, lágrimas surgiram-lhe nos olhos. Trinta anos antes o irmão Münch ministrara uma série de estudos bíblicos àquela senhora. Enquanto o irmão Fleschutz descia a rua, continuou pensando no irmão Münch, que muitos anos antes trabalhara naquela mesma rua, visitando casa após casa, e agradeceu a Deus porque tinha dado a esse querido irmão força para perseverar até a morte.

Transcrevemos a seguir uma carta da irmã Münch, de 4 de outubro de 1964, relatando o que ela e o marido sofreram sob o regime totalitário:

Meus prezados irmãos e irmãs no Senhor!

Paz seja com todos!

Passo a relatar minha experiência aos amados crentes que travaram o combate de boa consciência, na Alemanha, durante o regime de Hitler. Em primeiro lugar, dou honras e louvores a Deus, que tão maravilhosamente nos sustentou em todos os dias dessa ardente provação.

Certamente, os irmãos ouviram muitas experiências sobre nossos irmãos encarcerados durante as duas guerras mundiais, mas desejo agora falar das experiências pelas quais nós, irmãs, tivemos de passar. Era comum, no passado, pensar que, sendo [227] mulheres, não iríamos tão facilmente para a prisão. Eis porque o golpe nos foi duplamente severo. Tornou-se mais severo ainda quando, em momento crítico, irmãos apostataram e, ao renunciarem a fé, tornaram nossa carga bem mais pesada.

Em nossa vila havia uma mulher interessada na verdade, que nos visitava com freqüência, cujo marido era membro da SA (Sturmabteilung ). Ele ficou tão furioso com essa visitação que denunciou o caso ao partido. Meu marido logo foi preso e levado embora, enquanto meus filhos, que tinham então dez e cinco anos, ficaram chorando de maneira tão sentida que quase partiu o meu coração. Durante quase duas semanas mal pudemos comer. A Gestapo mandou que eu fornecesse os endereços de todos os irmãos.

Como eu me recusasse a colaborar, deixaram-me este recado:

"Ficaremos com seu marido até que nos forneça os endereços."

Isso aconteceu em novembro de 1936. Em 19 de abril de 1937, fomos julgados no tribunal especial em Mannheim. Éramos 15. Todos fomos condenados. O líder de nossa igreja e meu marido receberam a pena mais longa: sete meses. ...

Nosso castigo foi a cela solitária. A guarda do Sábado e o alimento servido na prisão causaram nova luta. Não tendo trabalhado nove Sábados durante os dois meses que ali passou, meu marido ficou 26 dias em confinamento. Recebeu apenas pão e água e foi deixado numa cela mais escura com apenas um banco de madeira para dormir.

Para as irmãs, eles abrandaram as circunstâncias. Por eu não trabalhar no Sábado, recebi dois dias de confinamento numa cela mais escura. Tiraram de mim o avental, sapatos, grampo de cabelo, etc. Queriam, assim, evitar possíveis tentativas de suicídio. Isso foi no Sábado e no domingo.

Agora, meus queridos irmãos e irmãs, como pensam que eu me sentia? Maravilhosamente bem! A gente se acostuma a tudo. Como não fosse permitido cantar em voz alta, eu cantava baixinho: "Tenho paz em meu coração, e isso me faz feliz", e outro cântico: "Rompendo laços com todas as coisas terrenas e enchendo-me das coisas eternas, encontro aqui a bendita paz que satisfaz o anseio da alma."

As lutas por que passei, apesar de cruéis e severas, foram maravilhosas. Era difícil resistir o poder das autoridades. Porém, por nada eu perderia essas experiências. Quando fui presa pela primeira vez, a supervisora xingou-me terrivelmente ao descobrir que eu pertencia aos adventistas. Disse-me que no Sábado havia trabalho a fazer, e que eu tinha de obedecer ou nunca mais voltaria para casa. Fiquei tão deprimida que palidez mortal tomou conta de mim. Fui dominada pelas lágrimas. Então [228] ela disse: "Mais duas de vocês estão aqui, e são as melhores pessoas da prisão". Então o Sol voltou a brilhar e meu coração se alegrou.

Permaneci decidida, dizendo calmamente para mim: Eu também pertenço a esses crentes. Ela não me verá desistir do Sábado.

Semanas depois, diante da minha firmeza, a supervisora disse:

— Vocês são verdadeiros comunistas!

Respondi:

— Senhorita Böhler, desde quando os comunistas crêem em Deus?

Saiu sem responder. Desde então, nem ela nem mais ninguém me perturbou. Só aos Sábados vinha para me tirar da cela. Terminando a minha pena, embora em circunstâncias difíceis, sob vigilância policial, meu marido e eu pudemos estar juntos outra vez.

A luta recomeçou quando, no início de 1939, ele recebeu convocação para o serviço militar. Embora tenha recebido seis ordens para comparecer, ele as ignorou. Em março de 1940 foi preso novamente. A alegação foi: não respondia à saudação nazista. Depois de passar dois meses na prisão aguardando julgamento, foi levado ao campo de concentração de Dachau. Suportou tudo heroicamente.

Às vezes escrevia para mim, e eu podia ler nas entrelinhas qual era o seu estado. Se escrevia, por exemplo, "espero que passe logo a severidade do inverno", eu sabia o que essas palavras queriam dizer.

De Dachau ele foi transferido para o campo de concentração de Neuengamme, perto de Hamburgo. Dali escreveu cartas cheias de alegria no Senhor, pois sempre esperava reencontrar seus entes queridos.

Em toda carta a principal preocupação era com os filhos. Recebi a última correspondência dele no fim de fevereiro de 1945, pouco antes de os norte-americanos marcharem contra Mannheim. Nossa esperança e a dele, de estarmos juntos, acabou quando não vieram as notícias que esperávamos.

Nunca recebi informe oficial. Em 1948 fiquei sabendo, por meio de um homem que supostamente estivera com ele até o fim, que morrera de inanição. A eternidade revelará.

Que o Senhor me dê forças para suportar até o fim e então experimentar a bendita promessa de 1 Tessalonicenses 4:16-18. ...

Saúdo a todos cordialmente como co-peregrina em demanda de Sião. Irmã A. Münch, Mannheim. —And Follow Their Faith, págs. 34-36.

A irmã Münch, que dormiu no Senhor em novembro de 1965, escreveu em sua última carta: "Deponho tudo nas mãos do grande Médico. O caminho no qual Ele nos conduz é bom. Agradeço a Ele somente, pois me tem conduzido maravilhosamente e tem cuidado de mim. Estou certa de que Ele continuará a fazer isso até o fim de [229] minha vida. Que Deus vos abençoe! Esse é o desejo de vossa sempre agradecida irmã Muench, que vos ama." (Adaptado do livro And Follow Their Faith, pág. 37).

Rapaz de 16 anos recusa-se a portar armas

Leander Zrenner

Do Noticiário Vespertino de Munique, de 25 de abril de 1955:

"Dezesseis anos atrás o pai de Zrenner foi executado como objetor de consciência. O filho também jamais pegará em arma de fogo!

" ‘Causa da morte: Execução’. É o que está escrito no atestado de óbito do pai, que o objetor de consciência de 19 anos de idade, Werner Zrenner, recebeu. No verão de 1941, um tribunal militar condenou o pai à morte por sua recusa em prestar serviço militar. Em 9 de agosto, o assistente e soldado Leander Zrenner caiu diante de uma rajada de balas em Brandenburg/Havel. O homem, profundamente religioso, pagou com a vida sua convicção contrária ao serviço militar. Adventista devoto, declarou que nunca apontaria armas contra alguém.

"Ontem, 24 de abril de 1955, dezesseis anos depois, o filho de Zrenner compareceu à Comissão Examinadora dos Objetores de Consciência no Departamento de Serviço Seletivo, Munique 1. A exemplo do pai, ele também se recusou a portar armas. Jamais será obrigado a fazer isso. A Comissão o declarou objetor de consciência. ‘A vida humana é intocável; portanto não posso conscientemente matar pessoas inocentes’, declarou Werner Zrenner diante dos membros da Comissão Examinadora. ‘É provável que eu tenha de suportar as conseqüências que meu pai sofreu 16 anos antes.’

"Além da mãe, três pessoas testemunharam em favor do jovem. Declararam com unanimidade que Zrenner, antes de entrar em vigor o alistamento geral, se expressara contra o porte de armas. O presidente da Comissão Examinadora, advogado Friedl Fertig, disse ontem: ‘A morte violenta do pai foi a razão das conclusões do rapaz acerca dos prós e contras do dever militar.’ Os membros da Comissão reconheceram a opinião de Zrenner baseada em suas convicções de consciência." — And Follow Their Faith, págs. 37 e 38.

Como a liberdade religiosa, o mais importante de todos os direitos humanos, foi instituída na Alemanha Ocidental após o fim da Segunda Guerra Mundial, Werner não teve a mesma condenação do pai.

Viúva morre após torturas em Auschwitz

Maria Maritschnig

Viúva de um alfaiate. Morto o marido, a oficina passou a ser administrada pelo irmão Ranacher. No lar da irmã Maritschnig, esse [230] irmão conheceu a verdade pregada pela Reforma, a qual aceitou de todo o coração. Sob instigação dos parentes dele, as autoridades acusaram a irmã Maritschnig de o ter induzido a aceitar a fé. Ela foi levada ao tribunal. Durante o julgamento, foi tratada com tanta aspereza que desmaiou e teve de ser carregada para fora da sala. Certos de que ela tivesse sido levada para o hospital, os crentes foram para lá. Equivocaram-se. Chegou a notícia de que havia sido transferida para Munique. Depois de torturas cruéis, foi levada para o infame campo de concentração de Auschwitz, onde faleceu. (Adaptado do livro And Follow Their Faith, págs. 38 e 39).

Muitos outros mártires

Dr. Alfred Zeyhs

Esse irmão foi lançado na prisão e, espancado, teve graves hematomas. Recusou-se a violar a Lei de Deus. Por permanecer inflexível em sua posição, foi transferido para o campo de concentração de Sachsenhausen, onde depôs a vida em 1940. A esposa e três filhos sobreviveram. (Adaptado do livro And Follow Their Faith, pág. 33, e de um artigo publicado na revista Der Adventruf, dezembro de 1946).

Willi Thaumann

O irmão Thaumann conheceu a verdade através da colportagem. Tinha uma loja de ferragens. Caráter puro e sincero, vivia à altura da verdade, sem fazer concessões. Vendo que era seu dever confessar a fé publicamente, apesar das bem-intencionadas advertências de um amigo policial, continuou fechando o comércio aos Sábados. Na porta da loja, havia uma tabuleta com o mandamento do Sábado. Por sua fidelidade ao quarto e sexto mandamentos, foi levado ao campo de concentração de Oranienburg, onde foi martirizado em 1941. (Adaptado do livro And Follow Their Faith, pág. 33).

Três irmãs russas

Entre os operários que foram levados à força da Rússia para a Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial, havia três jovens russas que se demonstraram heroínas da fé ao serem provadas com respeito ao quarto mandamento. "Faremos em cinco dias o trabalho que nos foi incumbido", disseram ao oficial do campo. Realmente fizeram mais que isso. Ninguém era tão elogiado pela diligência no trabalho como aquele pequeno grupo de crentes. Satanás, porém, não estava satisfeito. Naqueles dias o lema era: "Trabalhar! Trabalhar! Trabalhar! Na guerra, temos de vencer." [231]

Os trabalhadores gritavam cheios de inveja: "Se essa gente pode ter dois dias livres, nós também exigimos os mesmos privilégios." Eles se referiam ao Sábado e domingo.

Grave crise pessoal era iminente para aquelas irmãs.

O capataz tentou apaziguar os ânimos, dizendo que elas realizavam trabalho melhor, completando as tarefas de seis dias em cinco.

— Nós também podemos fazer isso, gritaram.

Então o capataz dirigiu-se ao pequeno grupo de crentes:

— Estão vendo? Não posso fazer nada. Vocês terão de trabalhar aos Sábados também. Caso contrário, fuzilamento! Estamos em guerra, e atitude como a de vocês, é considerada sabotagem contra a nação.

Nuvens de ansiedade pairaram sobre aquelas irmãs fiéis. No Sábado seguinte o capataz ficou furioso ao surpreendê-las num estudo bíblico. Disse-lhes:

— Vocês sabem quanto as aprecio. Se dependesse de mim, seriam dispensadas no Sábado. Estimo o bom trabalho que fazem, mas vejam o tumulto entre os trabalhadores. Além disso, a impressão é de que eu protejo os judeus. Peço-lhes o favor de trabalhar.

A resposta foi:

— Não podemos pôr os mandamentos de Deus abaixo dos preceitos dos homens. Se nosso Salvador quer que morramos, estamos prontas. Ele morreu primeiro por nós.

Como não cedessem, foram castigadas. Depois tornaram a perguntar se ainda continuavam com a mesma opinião. Recusando-se a mudar de conduta, declararam firmemente que preferiam morrer a ser separadas de Cristo. Seguiu-se uma cena da Idade das Trevas: foram açoitadas impiedosamente nas costas nuas até sangrar. Quando voltaram para a cela, uma lavou as feridas da outra e louvaram a Deus que as julgou dignas de sofrerem pelo nome de Jesus.

Depois de outra semana de trabalho, nova provação, maior que a anterior. O capataz encontrou-as novamente lendo a Bíblia, conforme seu costume.

— Hoje é a última oportunidade para vocês. Não acreditam que serão fuziladas?

— Sim, sabemos. É o que prevemos. Porém, nada temos a perder deixando este mundo. Além disso, nossa consciência diz que não merecemos ser maltratadas.

As três foram alinhadas diante da metralhadora. O major começou a contagem regressiva. Vendo que as irmãs continuavam inflexíveis, sem vacilação, o major fez alto e disse: "Deixem que guardem o Sábado. Jamais vi coisa semelhante."[232]

Depois disso, sempre que aquele homem tinha oportunidade, e não era vigiado, vinha ao culto sabático e ficava alguns instantes com as irmãs crentes. Além disso, com freqüência lhes trazia alimento extra. Elas disseram que não tinham sentimento de ódio nem vingança contra aquele homem. Ao contrário, chamaram-lhe a atenção para o amor de Deus e Suas obras maravilhosas, o plano da salvação, e a tríplice mensagem de Apocalipse 14. Só Deus sabe o que aconteceu a ele depois disso.

Muitos outros

Além desses mártires, houve muitos outros, durante a Segunda Guerra Mundial, que sofreram injustiça, perseguição e morte. Ernst Körner foi torturado até a morte no campo de concentração de Sachsenhausen em 1944. Robert Freier foi martirizado num campo de concentração em 1940. Certo irmão Hermann foi declarado morto na prisão de Breslau (1941?). Josef Blasi foi torturado até a morte no campo de concentração de Mauthausen em 1943. O irmão Ranacher foi sentenciado à morte por um tribunal militar durante a guerra. Esses também pertencem à longa lista dos heróis da fé.

Uma reportagem publicada no Völkischer Beobachter (Observador Popular), Áustria, deu informações adicionais sobre a perseguição cruel a que nossos irmãos foram submetidos. Diz o informe:

"Distrito de Kaernten,

"Klagenfurt, 20 de agosto de 1943

"Dez Anos Para Refletir na Penitenciária

"Adventistas no Serviço dos Oponentes

"Relatos Pessoais do Observador Popular

"Foram acusados perante no tribunal especial de Klagenfurt [Josef] Blasi, de 48 anos, e Maria Krall, de 48, ambos de St. Donat. Matthias Weratschik, de 37 anos, e a esposa Maria, de 28 anos, de Tiemenitz. Sob a influência da loucura adventista, os quatro recusaram-se a portar armas, citando textos da Bíblia na tentativa de levar à resistência compatriotas alistados. ... Esses queriam deixar a defesa da pátria ao cuidado do Senhor Deus. Para evitar piores calamidades, tais elementos transviados devem ao menos, durante a guerra, ser mantidos onde não possam causar dano. O tribunal especial os declarou culpados. Josef Blasi foi sentenciado a dez anos de prisão. Os outros três foram condenados apenas pelo crime de terem incorrido no parágrafo terceiro da Lei de Proteção das Defesas do Povo Alemão, porque se opuseram à lei mediante atitude [233] e antimilitarista. Assim, Maria Krall foi condenada a cinco anos. Matthias e Maria Weratschik foram condenados a dois anos na penitenciária." (Citado do livro And Follow Their Faith, pág. 52). -- Copiado do livro A História dos Adventistas do Sétimo Dia — Movimento de Reforma, págs. 220-233.

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