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terça-feira, 16 de agosto de 2011

Estranhos Usos e Costumes dos Pioneiros da Fé Adventista


Desmaios “espirituais”, gritos de “louvor” e línguas estranhas (com interpretação simultânea pelo proferidor, ou não), estão entre mais alguns dos dados e fatos que surpreendem os adventistas interessados em conhecer a história denominacional em seus pormenores não tão gloriosos. É o caso de certos episódios históricos que não aparecem nas publicações oficiais mas que nos ajudam a melhor entender o espírito do tempo dos pioneiros, seus escorregões em atitudes e entendimento, suas dificuldades em manter o equilíbrio, mas também seus indiscutíveis avanços na peregrinação espiritual como povo portador de solene mensagem para o mundo.


Além dos almoços gordurentos, tendo como atração principal um suculento prato de leitão assado, o hábito de fumar por honoráveis líderes de congregações adventistas e os trabalhos seculares nos sábados antes do pôr-do-sol (mas após as 6 horas), também algumas importantes reuniões dos adventistas dos primeiros tempos pareceriam por demais estranhas para os membros modernos da Igreja.

O primeiro de uma série de artigos denominada “Os Adventistas do Sétimo Dia e as Experiências Carismáticas”, publicada na Revista Adventista iniciada na edição de novembro de 1973, teve por título “Línguas nos Primórdios de Nossa História”. A série é de autoria do Pr. Arthur L. White, neto da Sra. White, por anos responsável pelo White Estate, nome em inglês do departamento denominacional traduzido ao português em geral como Patrimônio Literário de Ellen G. White. Diz ele na introdução à série:

Experiências de êxtase religioso não eram ocorrências raras entre cristãos sinceros de 1830 e 1840. Alguns daqueles que posteriormente se tornaram nossos antepassados espirituais, estiveram envolvidos nelas. Tais experiências podem ser consideradas sob os seguintes aspectos: (1) prostração física; (2) exclamação de louvores a Deus; (3) falar em línguas desconhecidas; (4) cura divina.

E o autor da série acrescenta:

Ao olharmos para trás desde a nossa atual posição, parece haver convincente evidência de que algumas dessas experiência foram genuínas. Há também evidência de que algumas não passavam de contrafações ou eram autoprovocadas em períodos de excitação.

Os casos de “prostração física” parecem comuns no que diz respeito à experiência da Sra. Ellen White. Mesmo antes de ser reconhecida como mensageira especial à igreja pelo dom de profecia, a Sra. White já havia experimentado esse tipo de manifestação, e de tal vigor que nem pôde ir para casa, permanecendo no templo até o dia seguinte. Recorda ela:

Inclinei-me tremente durante as orações que eram oferecidas. Após alguns poucos terem orado, alcei minha voz numa prece antes que me desse conta disso. . . . Louvei ao Senhor desde as profundezas de minh’alma. Tudo parecia extinguir-se perante mim, exceto Jesus e Sua glória, e perdi a consciência do que se passava em torno. O Espírito de Deus permaneceu sobre mim com tal poder que me foi impossível ir para casa naquela noite”. –Testimonies, vol. 1, pág. 31.

Ela descreve um sentimento de profunda paz e alegria como resultado dessa estranha experiência de ficar toda uma noite na igreja.

Noutra ocasião, ainda nesses tempos de pioneirismo milerita, a Sra. White não só vivenciou outros episódios de profunda prostração, mas testemunhou outros passando pelo mesmo:

. . . enquanto os congregados se dedicavam à oração, o Espírito do Senhor Se manifestou na reunião e um dos membros . . . ficou prostrado como morto. Seus parentes ficaram chorando em torno dele, esfregando suas mãos e aplicando-lhe revigorantes. Por fim, adquiriu força suficiente para louvar a Deus, e aquietou seus temores exclamando com triunfo que recebera sobre si o poder de Deus de maneira assinalada.

E mais uma vez, o estranho “plantão noturno” ocorreu: “O jovem foi incapaz de retornar para casa naquela noite”. Ibid., págs. 44 e 45.

Logo mais, é narrado outro episódio de um “robusto homem, devoto e humilde cristão” que “caiu diante de seus olhos, dominado pelo poder do Alto, e o compartimento foi cheio do Espírito Santo”. Como esse compartimento ficou assim “cheio do Espírito Santo” não é explicado, mas o fato, diz ainda o Pr. White, é que tais experiências “repetiam-se vez após vez. E houve ocasiões em que outros, sob a influência do Espírito Santo, ficaram prostrados”.

O Pr. White refere-se a mais uma descrição pela Sra. White de um estranho episódio de imposição de mãos acompanhada de prostração física, logo após o casamento dela em 1846:

Muitas orações foram oferecidas ao Senhor em meu favor, contudo pareceu bem ao Senhor provar nossa fé. Após outros terem orado, o irmão Henry [Nichols] começou a fazê-lo. Parecia inteiramente subjugado, e com o poder de Deus jazendo sobre si, ergueu-se de sobre os joelhos, atravessou o quarto e, depondo as mãos sobre minha cabeça, disse: “Irmã Ellen, Jesus Cristo a torna sã”. A seguir, caiu prostrado pelo poder de Deus. Acreditei que aquilo fora obra de Deus e a dor me deixou.— Spiritual Gifts, vol. 2, pág. 84.

O artigo ainda registra que pouco depois desse incidente, noutra reunião de oração, “o Espírito veio, e tivemos uma poderosa manifestação. O irmão e a irmã Ralph ficaram ambos prostrados e permaneceram dominados por algum tempo”. – Carta 1, 1848.

Mas uma vez fica-se a imaginar o que, em termos práticos, essa “poderosa manifestação” poderia significar, bem como o estarem marido e mulher “dominados por algum tempo”. O fato é que aquelas reuniões estariam mais próximas do que se passa no ambiente pentecostal de nossos dias do que nas reuniões, em geral, bem-comportadas de igrejas adventistas. E se o grau de espiritualidade dever ser medido pelo número de pessoas que experimentam as síncopes descritas, estaremos em má condição. Hoje em dia, se durante um culto pessoas começarem a desabar ao chão, como no caso desses pioneiros da fé adventista, em lugar de se louvar a Deus o que se há de fazer é correr ao telefone para chamar um médico. . .

Além de gente tendo esses desmaios “espirituais”, também alguma gritaria não parecia perturbar a ordem dos cultos da época. A Sra. White assim descreve de um desses “abençoados” encontros:

Nossa assembléia de Topsham foi de profundo interesse. Vinte e oito pessoas participaram da reunião. No domingo, o poder de Deus veio sobre nós como um poderoso vendaval. Todos se levantaram sobre os pés e louvaram a Deus em alta voz. . . . As vozes de choro não podiam ser discernidas das vozes de júbilo. Foi uma ocasião triunfante. . . – Carta 28, 1850.

O Pr. Arthur White procura dar uma interpretação sóbria a tais episódios: “Os registros publicados e não publicados, em anos subseqüentes, indicam que, em certas ocasiões de especial derramamento do Espírito de Deus, os santos uniam-se em expressões de louvor a Deus”.

Novamente, se o grau de espiritualidade e do “derramamento do Espírito de Deus” se há de avaliar pelos decibéis das “expressões de louvor”, nosso desempenho como igreja hoje estará deixando muito a desejar. Caso nossas reuniões modernas se caracterizassem por gritos de louvor acompanhados de choro, e gente sendo arrojada ao chão, iríamos é assustar visitantes e membros regulares em nossas igrejas, até mesmo aqueles tradicionalistas que suspiram pelos “bons tempos” de espiritualidade dos pioneiros da fé adventista.

Contudo, o mais surpreendente para muitos poderá constar do parágrafo seguinte do referido artigo pelo Pr. Arthur White:

Há em nossa história dos primeiros tempos, quatro experiências registradas quanto ao falar em línguas. A primeira teve lugar em 1847, aparentemente com o fim de conduzir um jovem ao ministério. A segunda, em 1848, envolve um ponto doutrinário. A terceira, em 1849, representou direção para o esforço missionário, e a quarta, em 1851, refere-se a um relato descrevendo o testemunho do Espírito Santo quando manifestava “a presença e poder de Deus”.

Ao dar mais detalhes desses episódios, o Pr. White garante: “As primeiras experiências de glossolalia de que temos registro estão relatadas num depoimento assinado por crentes pioneiros de inquestionável integridade, conhecidos por sua respeitabilidade como membros de responsabilidade na igreja”.

De um documento arquivado no White Estate o Pr. White transcreve o seguinte testemunho:

Nós também podemos testificar da manifestação do dom de línguas, ao nos acharmos numa reunião em North Paris, Maine, talvez em 1847 ou 1848. Foi uma reunião geral. O irmão e a irmã White estavam presentes e também os irmãos Ralph e Chamberlain, de Connecticut, bem como outros. Ao desenvolver-se a reunião, o Espírito de Deus manifestou-se numa maneira especial. O irmão Ralph falou numa língua desconhecida. Sua mensagem foi dirigida ao irmão J. N. Andrews: de que o Senhor o chamara para trabalhar no ministério evangélico e de que precisava preparar-se para isso. O irmão E. L. H. Chamberlain imediatamente levantou-se e interpretou o que ele havia dito. – Sra. S. Howland, Sra. Frances Howland Lunt, Sra. Rebeckah Howland Winslow, N. N. Lunt, Battle Creek, Michigan (Doc. 311).

Outra experiência foi de 1849 envolvendo Hirão Edson, aquele da “visão” no milharal na madrugada de 22 para 23 de outubro de 1844. Ele narra sua experiência com S. W. Rhodes para a publicação adventista Present Truth de dezembro de 1849. Esse Rhodes havia se isolado de todos após o desapontamento de 1844, escondendo-se nos bosques do Estado de Nova York onde passara a viver de caça e pesca e pequena horta. Hirão Edson foi por duas vezes procurá-lo no intuito de convencê-lo a sair daquele isolamento e voltar a unir-se a seus irmãos, todavia ambas as tentativas foram inúteis.

Antes de tentar uma terceira vez, Edson expôs a situação a alguns irmãos que resolveram orar a respeito. O irmão Edson conta o que se passou então:

O irmão Ralph pediu ao Senhor em segredo, que derramasse Seu Espírito sobre nós e, caso fosse Sua vontade, que procurássemos o irmão Rhodes.

O Espírito foi derramado, e permaneceu entre nós, de modo que o ambiente ficou tremendo e glorioso. Enquanto inquiria o Senhor se Ele enviara Seu servo até ali para que fosse comigo em busca do irmão Rhodes, nesse instante o irmão Ralph manifestou-se numa nova língua, desconhecida de todos nós. Depois veio a interpretação—“Sim, para ir contigo”. – Present Truth, dezembro de 1849, pág. 35.

Segundo afirma o autor dos artigos, a Sra. White manifestara dúvidas quanto à iniciativa e as línguas, mas tendo recebido uma visão confirmando a validade do novo contato com o afastado irmão, o projeto foi levado avante. Após tentarem convencer Rhodes quanto a retornar à civilização, eis o que se deu, segundo o articulista:

Houve, mais uma vez, o falar em nova língua. Hirão Edson, uma testemunha visual, relata: “Deus exibiu Seu convincente poder, e o irmão Ralph falou numa nova língua, dando-lhe a interpretação em poder e na revelação do Espírito Santo”. – Ibid., pág. 36.

O episódio parece ter impressionado sobremaneira o desapontado eremita adventista e o convenceu a retornar ao convívio de seus irmãos. O Pr. Arthur White ressalta que tal experiência foi registrada no órgão de grande circulação dos adventistas, o Present Truth, e assegura: “Sua autenticidade não é questionada”, para acrescentar: “Não nos é revelado se a ‘nova língua’ falada pelo irmão Ralph foi um idioma conhecido ou não”.

Mais uma vez, esse irmão Ralph é o que proferia a língua estranha, mas diferentemente do que se dera na primeira ocasião, quando outro deu a interpretação, neste episódio ele mesmo falou e traduziu. Não está claro se no segundo episódio, quando “depois veio a interpretação”, esta partiu do proferidor da língua estranha ou de outro intérprete.

Finalmente, um quarto episódio de línguas, desta vez em Vermont, verão de 1851, é referido na Review and Herald numa carta escrita para Tiago White pela irmã F. M. Shimper. Eis como é descrito o episódio:

Ela [a Sra. Shimper] fala da profunda experiência da igreja de East Bethel, no Vermont, e conta que o Senhor havia recentemente enviado “e abundantemente abençoado os labores de Seu servo, irmão Holt, entre nós. Após batizar seis dentre nosso número, nosso querido irmão Morse foi separado com a imposição de mãos, a fim de administrar as ordenanças da casa de Deus. O Espírito Santo testemunhou pelo dom de línguas, e solenes manifestações da presença e poder de Deus. O lugar estava solene, contudo glorioso. Nós sentimos realmente que “nunca o vemos deste modo”. – Review and Herald, 19 de agosto de 1851.

Nesta ocorrência não é dito quem exatamente falou em línguas, ou quantas pessoas o fizeram. Também nada é dito sobre interpretação dessas línguas ou o que, em termos práticos, significaria novamente a descrição do ambiente, isto é, essas “solenes manifestações da presença e poder de Deus” e o que está exatamente contido na descrição de que “O lugar estava solene, contudo glorioso”. Seria interessante saber o que queriam dizer com tal linguagem, quais evidências se teriam dessas supostas manifestações da presença divina. O modo subjetivo como isso é expresso deixa um ar de mistério e interrogações profundas que tornam difícil avaliar a validade de tais alegações.

Falando sobre a atitude da Sra Ellen White quanto a esses episódios de línguas, os comentários do Pr. White parecerão um tanto enigmáticos:

Não há registro de Ellen White dando explícito apoio, ou expressando endosso a experiências extáticas com línguas desconhecidas, embora fosse testemunha visual de três dentre quatro de tais ocorrências. Ela provavelmente manteve-se em silêncio ao acompanhar o desenrolar do caso do irmão Rhodes. Mesmo o falar em línguas pelo irmão Ralph não logrou convencê-la. Posteriormente, foi-lhe mostrado que o pensamento e sentimentos de uma pessoa têm grande influência sobre essas experiências.

Afinal, a Sra. White reconheceu ou não a validade das referidas experiências de línguas? Isto não parece claro pelo que se lê neste último parágrafo. Mais tarde ela condenou de modo claro experiências nessa linha, como o que vinha ocorrendo em Portland, Maine, onde eclodiu um movimento de marcação de datas associado a manifestações carismáticas de línguas, dançar no Espírito e contorcer-se no Espírito. A Sra. White expressou-se claramente contra tal movimento declarando que as línguas ali faladas eram uma “língua desconhecida, desconhecida não só ao homem, mas ao Senhor e a todo o Céu”. Ainda segundo ela, seriam episódios “manufaturados por homens e mulheres ajudados pelo grande enganador”, como se pode ler no Vol. 1 de Testemunhos Seletos, págs. 161 a 163.

As descrições da ambientação altamente mística, espiritual, “triunfante”, “gloriosa”, de “manifestação do poder de Deus”, etc. podem levar-nos a crer que confirmariam o que declarou um pesquisador português dessas questões. Ernesto Sarmento, em matéria publicada na Internet, afirma que “na época as reuniões [adventistas] eram barulhentas, com muitas manifestações desorientadas e atrevidas, excessos e extremismos próprios da infantilidade espiritual (onde se gritava, andavam de gatas, proferiam sons e imitações esquisitas)”.

Um acontecimento que confirmaria o caráter pouco ortodoxo das reuniões dos primeiros tempos do adventismo seria o famoso episódio de Israel Dammon. A divulgação da documentação a respeito do que se passou realmente na oportunidade, por Bruce Weaver em 1986, foi considerada “a descoberta de documento histórico adventista do século”.

Trata-se de uma reunião espiritual ocorrida na casa de Israel Dammon, caracterizada por tal confusão, gritaria e exageros que vizinhos tiveram que pedir a intervenção das autoridades policiais do lugar. Eis a versão da Sra. White descrevendo o que se passou com a chegada do delegado:

. . . enquanto eu falava, dois homens espiavam pela janela. Estávamos seguros de suas intenções. Entraram e passaram rapidamente a meu lado até alcançar o Ancião Damman [sic]. O Espírito do Senhor posou sobre ele, e sua força desapareceu, e caiu ao solo indefeso. O oficial exclamou: “Em nome do estado do Maine, agarrem este homem!” Dois homens o agarraram pelos braços, e outros dois pelos pés, e tentaram tirá-lo da habitação arrastado. Só o moveram uns poucos centímetros e logo saíram da casa. O poder de Deus estava nessa habitação, e os servos de Deus, com seus semblantes iluminados por sua glória, não ofereciam resistência. Os esforços para tirar o Ancião D. se repetiam com o mesmo resultado. Os homens não podiam suportar o poder de Deus, e era um alívio para eles sair da casa. O número deles aumentou até doze, e ainda o Ancião D. foi retido pelo poder de Deus por uns quarenta minutos, e nem sequer toda a força daqueles homens podia movê-lo do piso onde jazia indefeso. No mesmo momento, todos sentimos que o Ancião D. tinha que ir-se, que Deus havia manifestado seu poder para sua glória, e que o nome do Senhor seria glorificado mais se deixássemos que fosse levado dentre nós. E aqueles homens o levantaram tão facilmente como se levanta uma criança, e o levaram. – Spiritual Gifts, Vol. 2, pp. 40-41.

Assim analisa a situação o pesquisador referido:

Ellen entendeu tudo como uma impressionante intervenção sobrenatural, mas é bem provável que naquele ponto, no meio da confusão, e estando ela própria sob influências espúrias entende-se as coisas desse modo. Ela não foi uma testemunha idônea do sucedido, pois, repetimos, estava naquelas alturas influenciada pelo caos e a desordem ali instaladas. O seu dom espiritual fora abafado e descontrolada repetia coisas insensatas.

Devemos compreender que Ellen estava então na mamadeira espiritual, era uma criancinha inexperiente, que começava a dar os primeiros passos. Envolvida num clima emocionalíssimo e descontrolado é perfeitamente admissível que tenha incorrido em extremismos e delírios extravagantes. Aliás, quando lemos pela primeira vez os testemunhos idôneos daqueles que testemunharam perante o tribunal da época, imediatamente percebemos que se tratava de uma situação muito semelhante ao que sucedera nos dias de Paulo com os crentes de Corinto. Se não entendermos que até mesmo o exercício dos dons dependem da maturidade dos sujeitos que os experimentam, que se exige um auto-controle, certo domínio e portanto aprendizagem, como vamos entender aquilo que Paulo disse sobre situação similar aos coríntios?

De fato, a documentação refente aos relatórios policiais do episódio são bem diversos da avaliação triunfalista da Sra. White. Vejamos como o pesquisador Sarmento expõe o que então realmente se passou:

Bruce Weaver, estudante de pós-graduação do Seminário da Universidade Andrews descobriu um informe jornalístico (no Piscataquis Farmer) acerca da detenção e julgamento de Israel Dammon, um dos adventistas e amigos de Ellen White. Ele descobriu que o artigo do jornal divergia da versão dada pela irmã White. Ellen tinha dado uma perspectiva adaptada dos acontecimentos, uma leitura parcial, omitindo muitos detalhes. No meio de tanta confusão é certo que não presenciou todos os detalhes. É igualmente possível que propositadamente tenha calado muitos pormenores. Vamos reconstituir os fatos.

Regressamos a 1845. Logo após o desapontamento gerou-se entre os adventistas grande confusão religiosa, o fanatismo e o culto emocional. O culto era principalmente doméstico (em lares privados), e as reuniões incluíam fenomenologia “carismática”, onde se destacavam o “ósculo santo” como saudação, gritos latidos e cantos em voz alta, prostrações físicas (rebolar-se pelo chão, gatinhar, dar pulos, arrastar-se, etc.), batismos múltiplos por imersão, visões (principalmente eram as mulheres que as experimentavam).

Sucedeu que no sábado, 16 de Fevereiro, Ellen chega à cidade, procedente de uma reunião em Exeter, no Maine, onde suas visões ajudaram a convencer a Irmã Durben de que aceitasse a doutrina da porta fechada (como já se referiu acima) [Ver artigo 39, “O Episódio da ‘Porta Fechada’” de nosso Catálogo de temas]. Na tarde de sábado, os crentes adventistas reuniram-se na casa de Ayer em Atkinson, Maine. Israel Dammon dirigiu a reunião. Estavam presentes as visionárias Dorinda Baker e Ellen Harmon. O Pr. Tiago White também estava presente. O que aconteceu nessa tarde de sábado?

Privilegiamos in limine o depoimento de William Crosby, um advogado de 37 anos, o qual no tribunal dois dias mais tarde disse: “Às vezes falavam todos de uma vez, gritando a todo pulmão. . . uma mulher jazia de costas no solo, com uma almofada sob a cabeça; de quando em quando se levantava, e contava uma visão que lhe havia sido revelada. . . . Foi a reunião mais ruidosa a que jamais assisti - não havia ordem nem regularidade, nem nada que se parecesse com alguma outra reunião que eu tivesse freqüentado. . .” – Piscataquis Farmer, 7 de mar. de 1845 (in Bruce Weaver, Adventist Currents, “The Arrest and Trial of Israel Dammon”, Vol. 3, Nº. 1, 1988).

Outro testemunho é o do diácono Tiago Rowe: “Estava na casa de Ayer por um pouco no domingo passado à noite. . . . Fui jovem, e agora sou velho, e em todos os lugares em que estive, nunca vi tal confusão, nem sequer numa farra de bêbados.” – Ibid.

Loton Lambert, que esteve presente na reunião deu o seguinte testemunho juramentado no tribunal: “Estavam cantando quando eu cheguei - depois de cantar sentaram-se no solo - Dammon disse que uma irmã tinha uma visão para contar - então uma mulher no solo relatou sua visão. Dammon disse que todas as denominações eram de ímpios - mentirosos, libertinos, assassinos, etc.; também criticou a todos os que não eram crentes como ele. Ordenou que saíssemos. Ficamos. Dammon e outros chamavam Imitação de Cristo à mulher que jazia no solo relatando visões. Dammon nos chamou de porcos e diabos, e disse que se fosse o dono da casa nos expulsaria - a mulher a quem chamavam Imitação de Cristo disse à Sra. Woodbury e a outros que deviam abandonar todos os seus amigos ou ir para o inferno. Imitação de Cristo, como a chamavam, permanecia no solo um pouco, depois se erguia, chamava a alguém, e dizia que tinha uma visão que contar-lhe, o que então fazia. Havia uma garota que diziam dever ser batizada naquela noite ou iria para o inferno. Ela chorava amargamente, e queria ver primeiro a mãe; disseram-lhe que tinha que abandonar sua mãe ou iria para o inferno - uma voz disse: Deixem que se vá para o inferno. Ela finalmente foi batizada. Imitação de Cristo contou sua visão a uma prima minha, de que devia ser batizada naquela noite ou iria para o inferno–ela objetou porque já havia sido batizada uma vez. Diziam que Imitação de Cristo era uma mulher de Portland.” – Ibid.

Tiago Ayer, confirmou ante o tribunal que a visionária a quem Lambert se referia como “Imitação de Cristo” era Ellen Harmon: “Vi a mulher com uma almofada sob a cabeça - o seu nome é Srta. Ellen Harmon, de Portland. Não a ouvi nem a qualquer outra pessoa dizer algo acerca de Imitação de Cristo.” – Ibid.

A outra visionária era Dorinda Baker, a qual tinha uma saúde muito precária (como Ellen). A testemunha Joshua Burnham diz acerca dela: “Conheço a Srta. Dorinda Baker desde que ela tinha cinco anos–tem bom caráter—agora tem vinte e três ou vinte e quatro anos de idade. É uma moça muito doentia, seu pai gastou U$1.000 com médicos. Eu estive na reunião do sábado à noite—foi convocada para que a jovem contasse suas visões.” – Ibid.

Tão desmesurado era o ruído, o caos e o barulho infernal da reunião, que a vizinhança ofendida com o evento decidiu chamar as autoridades para que a interrompessem. . . .

O testemunho de Joseph Moulton, o delegado encarregado de prender Dammon, também é digno de nota. Ele disse em tribunal: “Quando fui prender o prisioneiro, fecharam-me a porta. Vendo que não podia alcançá-lo desde fora, forcei a porta. Cheguei até onde estava o prisioneiro, o tomei pela mão, e lhe informei a que viera. Várias mulheres saltaram e o rodearam–elas se agarraram a ele, e ele a elas. Tão grande foi a resistência que eu e três ajudantes não pudemos tirá-lo. Permaneci na casa e pedi mais ajuda; depois que esta chegou, fizemos uma segunda tentativa, com o mesmo resultado—novamente pedi reforço—depois que chegou, os vencemos e o tiramos detido. Tanto os homens como as mulheres ofereceram resistência. Não posso descrever o lugar—era uma gritaria constante.” – Piscataquis Farmer, 7 de mar. de 1845 (citado in Bruce Weaver, Adventist Currents, “The Arrest and Trial of Israel Dammon”, Vol. 3, Nº. 1, 1988).

O testemunho juramentado de Moulton indica claramente que foram a mulheres e os homens que saltaram para ajudar a Dammon e o retiveram - e não o poder de Deus como entendeu Ellen. E os testemunhos são unânimes nesta apreciação, pelo que não restam dúvidas sobre o que deveras ocorreu. Se fosse o poder de Deus a cena não teria acabado como terminou.

Depois de passar o fim de semana na cárcere, Dammon compareceu a juízo na segunda-feira. A irmã White diz o seguinte acerca de Dammon no julgamento: “Na hora do julgamento, o Ancião D. estava presente. Um advogado ofereceu seus serviços. A acusação contra o Ancião D. era de que havia alterado a ordem. Muitas testemunhas foram trazidas para sustentar a acusação, mas em seguida seus testemunhos foram desmentidos pelos dos conhecidos do Ancião D. que estavam presentes e que também foram chamados a depor. Havia muita curiosidade por saber no que criam o Ancião D. e seus amigos, e se lhes pediu para apresentar um resumo de sua fé. Então ele lhes falou em tom claro de sua crença a partir das Escrituras. Também sugeriu-se que cantassem algum de seus hinos, e a ele foi pedido que cantasse um. Havia um bom número de vigorosos irmãos presentes que o haviam apoiado durante o julgamento, e o acompanharam a cantar “When I was down in Egypt’s land, I heard my Savior was at hand.” [Quando eu estava na terra do Egito, ouvi que meu Salvador estava perto].Foi indagado ao Ancião D. se tinha uma esposa espiritual. Ele respondeu que tinha uma esposa legal, e que podia dar graças a Deus de que ela havia sido uma mulher muito espiritual desde que a havia conhecido. Creio que as custas do processo lhe foram cobradas e foi posto em liberdade.” – Spiritual Gifts, Vol. 2, pp. 41, 42, 1860.

O jornal Piscataquis Farmer apresenta uma versão do processo um pouco diferente: foi Dammon que “pediu permissão” para cantar. Durante a etapa de sentença do juízo, foi permitido a Dammon falar em sua defesa. Note o que ele disse e sublinhe bem as crendices daquela época (que foram igualmente as de Ellen White como já se viu): “Ele [Dammon] argumentou que o dia de graça havia passado, que o número de crentes era reduzido, mas que havia muitos ainda, e que o fim do mundo se daria dentro de uma semana. Depois de consultar, o tribunal sentenciou ao prisioneiro passar dez dias na Casa de Correção. . . .” – Piscataquis Farmer, 7 de mar. de 1845.

Israel Dammon, pelo final de 1846 abandonou sua crença na porta fechada: “Estivemos relacionados com o Sr. e a Sra. White, e por um tempo tivemos confiança nas visões dela, mas por muitos anos não a temos tido em absoluto. Quando vimos que se contradiziam entre si, renunciamos a elas por completo, e nos aplicamos à Palavra de Deus. Passaram-se vinte anos ou mais desde que estivemos associados com a Sra. White. Recordamos perfeitamente, porém, que suas primeiras visões ou sua primeira visão foi contada tanto por ela mesma como por outros (especialmente pela Sra. White) em relação com a prédica da ‘porta fechada’, e a fomos respaldar. Enquanto estava sob essa influência, e pregando as visões, ela, em visão, viu N. G. Reed e I. Dammon em estado imortal, coroados, no reino. Depois disso, ela os viu finalmente perdidos. Como podiam ser verdade as duas coisas? Penso que uma era tão verdade quanto a outra, e que Deus nunca lhe disse tal coisa.” – Miles Grant, An Examination of Mrs. Ellen Whites Visions, Boston: Advent Christian Publication Society, 1877.

Ellen White não menciona que ele usou a “porta fechada” e o iminente regresso de Cristo como parte de sua defesa. Dammon foi encarcerado. Ellen não refere nada acerca da gritaria, das prostrações físicas, das demonstrações de humildade voluntária (arrastar-se, latidos), etc. Sabemos porém que esse era o ambiente das reuniões naqueles dias. Lucinda Burdick foi testemunha de muitas dessas reuniões ou cultos. Ela diz-nos: “Quando os conheci pela primeira vez [Ellen e Tiago White], eram exageradamente fanáticos—costumavam sentar-se no solo em vez de em cadeiras, engatinhar pelo piso como criancinhas. Tais extravagâncias eram consideradas sinais de humildade.” – Miles Grant, An Examination of Mrs. Ellen Whites Visions, Boston: Advent Christian Publication Society, 1877.

Ernesto Sarmento busca explicar o problema desses excessos por um ângulo realista, porém, positivo:

Note bem os excessos e as extravagâncias da época, mas não esqueça que o mais importante é que houve posterior desenvolvimento espiritual e abandono dessas infantilidades. Existiu crescimento espiritual. Se não somos capazes de entender as coisas nesta perspectiva ou modelo (paradigma) bíblico, então devemos obrigatoriamente renunciar a tudo o que Ellen jamais escreveu, e francamente, isso seria uma atitude tola, precipitada e despropositada. Infelizmente, isso é o que fazem os críticos. Mas, lamentavelmente a Igreja tampouco tem uma postura clara, honrada e digna sobre o tema, pelo que muitos bons crentes descarrilam ao aperceber-se de tudo isto. Incluso os críticos privam-se de atitudes mais moderadas porque a Igreja tem atitudes infantis, pouco éticas e desonradas.

John Doore testemunhou no tribunal que tinha “visto homens e mulheres gatinhar pelo solo sobre mãos e pés.” George S. Woodbury disse: “Minha esposa e Dammon passaram pelo piso gatinhando sobre mãos e pés.”

O irmão Bruce Weaver explica o que se passava nesses primeiros cultos adventistas: “Um correspondente do Norway Advertiser oferece uma descrição do engatinhar que teve lugar na casa do capitão John Megquier em Poland, Maine: ‘Raras vezes se sentam em qualquer posição que não seja sobre o piso desnudo. . . . na reunião a que ele assistiu, uma mulher se pôs sobre as mãos e pés, e engatinhou por todo o piso como uma criança. Um homem, na mesma posição, a seguiu, chocando-se cabeça com cabeça várias vezes. Outro homem se estendeu de costas sobre a cama em toda sua extensão, e três mulheres o cruzaram com seus corpos.” – Bruce Weaver, Adventist Currents.

Compare agora este texto que acabou de ler com este outro escrito pela irmã Ellen em 1894, e repare na maturidade desta última apreciação do culto cristão: “Cada parte do serviço de Cristo se caracterizará pelo decoro e a reverência. A verdade de Cristo não pode limitar-se a um certo âmbito, mas será ativa na criação do ambiente, da conduta, dos hábitos, e das práticas que estarão em harmonia com seu Autor. Tudo se fará decentemente e com ordem. Os métodos descontrolados, os caprichos estranhos, e a confusão não estão autorizados pelo Deus de ordem.” – Ellen White, Signs of the Times, 27 de agosto de 1894.

Eis aí uma Ellen mais madura! Crescida, longe da infantilidade daqueles dias, mais perto do modelo bíblico. Neste assunto, porque noutros continuava defeituosa como pecadora que era. Tal é o caso das comidas e bebidas, em que mostrava um zelo excessivo, uma vontade enorme, e contudo manducava arenque, galinha, veado e especialmente ostras (carne impura) e o vício do vinagre (bomba alcoólica). . . .

No princípio de sua carreira prevalecia a crença de que gritar era um método eficaz para lutar contra o diabo. Assim, em 1850, a irmã Ellen escreveu: “Vi que cantar amiúde afasta o inimigo, e gritar o faz retroceder.” - Ellen White, Manuscript 5a, 1850; julho 1850, de East Hamilton, N.Y. Mas, mais tarde, por volta de 1900, a irmã White já tem um pensamento mais maduro e cristão acerca das reuniões ruidosas e escreve o seguinte: “Dou meu testemunho, declarando que esses movimentos fanáticos, esse barulho e confusão, foram inspirados pelo espírito de Satanás, que estava operando milagres para enganar, se possível, os próprios escolhidos.” – Ellen White ao Irmão e Irmã Haskell, 10 de outubro de 1900.

Vê como ela evoluiu?

[Extraído do texto disponibilizado no site www.adventistas.com, Ernesto Sarmento, Ellen G. White: Os sonhos, as visões e os primeiros escritos (1844 -1851). O texto foi submetido a ligeiros ajustes editoriais para estar mais próximo do português do Brasil].

No livro A Mão de Deus ao Leme, especialmente o capítulo 10, o autor Enoch de Oliveira busca apresentar a experiência de Ellen G. White como sendo aquela dentre os líderes adventistas dos primeiros tempos que sempre combateu o fanatismo e salvou a igreja de mergulhar em extremismo. Como o pesquisador Sarmento demonstra, isso é verdadeiro a partir de quando houve um amadurecimento de sua experiência cristã. Contudo, a maneira triunfalista em que tanto Enoch de Oliveira quanto o neto de Ellen G. White apresentam os fatos não permite que se tenha um quadro completo da situação real. De centro do fanatismo, em alguns casos, para combatente vigorosa do mesmo muitos episódios estranhos tiveram que se passar nos primórdios de nossa história denominacional.

Felizmente, apesar de um início tumultuado e confuso, a Igreja Adventista do Sétimo Dia experimentou finalmente o bom-senso no seu desenvolvimento histórico. Após o agitado período dos primeiros tempos, cheios de marcação de datas para o fim, noções equivocadas sobre o sentido do evangelho e práticas carismáticas como acima descritas, a Igreja inclinou-se numa direção de equilíbrio e busca de progresso material e espiritual mais condizente com o apelo de Pedro: “Crescei na graça e no conhecimento de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2 Pedro 3:18).

Extraído de: http://www.ellenwhiteexposed.com

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